Evandro Carreira: o homem que pensava a Amazônia cinquenta anos à frente do seu tempo.. Muito antes de a Amazônia ocupar o centro das discussões mundiais sobre mudanças climáticas, biodiversidade e desenvolvimento sustentável, o senador amazonense Evandro Carreira já defendia que o futuro da floresta dependia da ciência, do conhecimento e do respeito à natureza.
Suas ideias, consideradas visionárias na década de 1970, permanecem atuais e ajudam a compreender os desafios da Amazônia no século XXI. Um homem que enxergava além do seu tempo.. Existem homens públicos que ocupam cargos importantes. Outros deixam um legado que atravessa gerações. Evandro das Neves Carreira pertence a esse segundo grupo.
Muito antes de palavras como bioeconomia, mudanças climáticas, economia verde e COP entrarem definitivamente no vocabulário mundial, ele já defendia que a Amazônia precisava ser estudada profundamente antes de qualquer projeto de desenvolvimento.
Sua principal preocupação não era impedir o progresso, mas evitar que ele fosse construído sobre o desconhecimento da maior floresta tropical do planeta.
Passados mais de cinquenta anos, suas reflexões continuam surpreendentemente atuais.
Quem foi Evandro Carreira
Nascido em Manaus, em 24 de agosto de 1927, Evandro das Neves Carreira formou-se em Direito pela Faculdade de Direito do Amazonas e iniciou sua vida pública como vereador de Manaus, onde exerceu dois mandatos consecutivos.
Em 1974 foi eleito senador da República pelo então Movimento Democrático Brasileiro (MDB), exercendo seu mandato entre 1975 e 1983, período marcado por profundas transformações políticas no Brasil.
No Senado Federal tornou-se conhecido pela firme defesa dos interesses da Amazônia, levando ao debate nacional aquilo que chamava de “Recado Amazonense”, um conjunto de ideias voltadas à preservação da floresta, ao respeito às populações amazônicas e à valorização do conhecimento científico como base para qualquer modelo de desenvolvimento.
Um pensamento revolucionário para a década de 1970
Na década de 1970 praticamente não existiam debates públicos sobre sustentabilidade.
Poucos falavam em ecologia.
As mudanças climáticas ainda não ocupavam espaço na agenda internacional.
Mesmo assim, Evandro Carreira já alertava que nenhuma floresta poderia ser administrada sem que primeiro fosse plenamente conhecida.
Em junho de 1974, escreveu um texto que hoje impressiona pela atualidade: “O Inventário da Amazônia”.
Nele defendia uma ideia simples, porém revolucionária.
Antes de explorar. Antes de planejar. Antes de desenvolver. Era preciso conhecer. Conhecer cada ecossistema. Cada espécie. Cada interação biológica.Cada riqueza existente na floresta.
Sua proposta era a realização de um grande inventário científico da Amazônia, reunindo pesquisadores de diversas áreas para compreender a complexidade daquele gigantesco patrimônio natural.
Hoje essa ideia continua fazendo sentido.
O Inventário da Amazônia
Para Evandro Carreira, nenhum planejamento sério poderia ser realizado sem conhecimento.
Ele criticava projetos econômicos elaborados sem que houvesse um levantamento científico detalhado da floresta.
Sua defesa era clara: Era impossível falar em desenvolvimento sustentável sem antes compreender profundamente aquilo que se pretendia desenvolver. Mais do que um discurso político, tratava-se de uma visão baseada na ciência.
Seu pensamento colocava pesquisadores, universidades e institutos científicos no centro da construção do futuro amazônico. Décadas depois, essa lógica tornou-se um dos pilares das discussões internacionais sobre conservação ambiental.
A ciência como caminho
Muito antes da valorização mundial da pesquisa científica sobre a Amazônia, Evandro Carreira defendia a criação de uma estrutura permanente dedicada ao estudo da região.
Em seus escritos destacava áreas como: Ecologia; Zoologia; Fitologia; Medicina Tropical; Genética; Ictiologia; Engenharia Florestal; Limnologia; Bioquímica; Energia Solar.
Para ele, conhecer a floresta significava compreender o próprio funcionamento da vida. Essa visão demonstra o quanto estava à frente de seu tempo.
Hoje, instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), universidades e centros de pesquisa seguem exatamente esse caminho ao investigar biodiversidade, mudanças climáticas, recursos naturais e bioeconomia.
Minhas conversas com Evandro Carreira
Durante muitos anos tive o privilégio de conversar diversas vezes com Evandro Carreira. Nossos encontros nunca eram superficiais. Falávamos sobre Amazônia. Sobre ciência.Sobre educação.Sobre política.Sobre futuro.
Lembro-me especialmente de uma observação que sempre despertava minha atenção. Ele dizia que seu pai já utilizava a palavra “ecologia” muito antes de ela se tornar conhecida da maioria dos brasileiros.
Na época aquela afirmação parecia curiosa. Hoje compreendo que refletia uma maneira diferente de enxergar a relação entre o ser humano e a natureza. Essas conversas me fizeram perceber que Evandro não pensava apenas na Amazônia do seu tempo.
Pensava na Amazônia das futuras gerações.
O mundo finalmente chegou ao debate que Evandro propunha
Cinquenta anos depois de escrever “O Inventário da Amazônia”, o planeta discute exatamente os temas que preocupavam Evandro Carreira. Mudanças climáticas. Proteção da biodiversidade.Conhecimento científico.
Valorização dos povos tradicionais. Bioeconomia. Conservação da floresta. Não significa que todas as suas propostas tenham sido adotadas ou que todas as suas ideias fossem consenso. Mas é inegável que muitas das questões que ele levantava passaram a ocupar um lugar central nas discussões sobre o futuro da Amazônia.
Essa talvez seja a maior demonstração de como seu pensamento permanece atual.
Um legado que precisa ser preservado
Evandro Carreira faleceu em 22 de dezembro de 2015, aos 88 anos. Mas suas ideias continuam presentes. Em seus livros. Em seus artigos. Nos discursos. E na memória daqueles que tiveram a oportunidade de conhecê-lo.
Preservar sua história significa também preservar uma forma de pensar a Amazônia baseada no conhecimento, na responsabilidade e no respeito pela floresta. As novas gerações talvez nunca tenham ouvido um discurso de Evandro Carreira.
Mas certamente continuarão enfrentando muitas das perguntas que ele formulou ao longo de sua vida. Muito além da política Reduzir Evandro Carreira à condição de ex-senador seria ignorar a dimensão de sua contribuição.Ele foi advogado. Escritor. Orador.Pensador.
Amazonense apaixonado por sua terra.
Um homem que acreditava que a ciência deveria orientar o desenvolvimento e que a Amazônia precisava ser conhecida antes de ser transformada.
Esse talvez seja o maior legado que deixou.
Conclusão
Enquanto os rios seguem seu curso e a floresta continua desafiando o tempo, as ideias de Evandro Carreira permanecem vivas. Não porque pertençam ao passado. Mas porque continuam dialogando com o futuro.
Sua trajetória nos lembra que nenhuma sociedade constrói um amanhã sólido sem conhecer profundamente aquilo que deseja preservar. Mais do que um senador, Evandro Carreira foi um homem que escolheu pensar a Amazônia quando poucos compreendiam sua verdadeira dimensão.
Hoje, mais de cinquenta anos depois, sua voz continua ecoando entre os rios, as árvores e todos aqueles que acreditam que conhecer é o primeiro passo para proteger.
Reportagem
Almir Souza
Editor Responsável
Portal Olhar do Norte Brasil
