TUDO MUDOU.. Saudades de uma Manaus que ficou na memória. Tem dias em que a gente para diante do tempo e começa a viajar. Não precisa de avião, carro ou barco. Basta fechar os olhos. E foi assim que, outro dia, comecei a caminhar por uma Manaus que já não existe da mesma maneira. Uma Manaus que ficou na memória. Uma Manaus que me dá saudade.
Não estou dizendo que tudo era melhor antigamente. O mundo mudou. A cidade cresceu. A tecnologia chegou. A ciência avançou. As pessoas mudaram. Mas, junto com tudo isso, algumas coisas foram ficando pelo caminho. E só percebemos quando a saudade bate.
A Manaus que eu conheci
Tenho saudade daquela Manaus que um dia foi chamada de Paris dos Trópicos. Uma cidade que carregava no Centro a sua história, seus prédios, suas praças, seus mercados, suas ruas e o movimento de um povo que parecia ter mais tempo para conversar.
Saudade do Mercadão. Saudade do porto. Saudade daquele movimento de barcos, canoas, vendedores, passageiros e mercadorias chegando e partindo pelos rios.O rio fazia parte da vida.
Não era apenas uma paisagem. Era caminho. Era trabalho.Era encontro. Era partida. Era chegada. Era história. Saudade dos igarapés
E os igarapés?
Que saudade dos banhos de igarapé. Da água doce. Das brincadeiras. Das canoas. De andar de um lado para outro sem pressa, sentindo a água, o vento e aquela sensação de liberdade que hoje parece tão distante.
Havia uma relação muito mais próxima entre o homem e a natureza. A Amazônia não estava apenas ao redor da cidade. Ela fazia parte da vida da cidade. Saudade das árvores
E como esquecer os grandes benjaminzeiros?
Ainda hoje podemos encontrar árvores antigas na Rua Getúlio Vargas e na Rua Joaquim Nabuco, no Centro. Árvores enormes, oferecendo sombra generosa. Quando passamos debaixo delas, percebemos imediatamente a diferença.
É outra temperatura. É outro ambiente. É outra sensação. E fico pensando como seria Manaus se tivéssemos milhares de árvores espalhadas por todos os bairros. Talvez a cidade respirasse diferente. Mas essa já é uma reflexão para outro momento. Hoje estou falando de saudade.
Saudade dos sabores
E que saudade das nossas comidas. Do peixe frito. Do caldo de peixe. Das nossas farinhas.Daquela farinha que acompanhava praticamente tudo e que tinha personalidade própria.
Saudade do tucumã. Da tapioca quentinha. Do cupuaçu. Do taperebá. Das pimentas. Do pé de moleque. Da manisoba. Do mungunzá. Da pamonha de milho. E de tantas outras iguarias que faziam parte da nossa vida. Hoje podemos encontrar comida de todos os lugares.
Mas alguns sabores carregam uma coisa que nenhum restaurante moderno consegue reproduzir: memória. O sabor de uma comida também pode trazer de volta uma casa, uma pessoa, uma conversa, uma infância. Saudade das escolas
Saudade dos pipoqueiros na porta das escolas.A criançada saindo e encontrando aquele pequeno mundo de sabores esperando do lado de fora. Saudade das merendeiras. Mulheres que muitas vezes sabiam o nome dos alunos, conheciam suas histórias e colocavam carinho naquilo que serviam.
Saudade de pessoas como Dona Siloca. Talvez para muita gente sejam apenas nomes. Para quem viveu, não. São pedaços de uma época. São pessoas que ajudaram a construir aquilo que hoje chamamos de memória.
Saudade do boi-bumbá E as pastoras do boi-bumbá? Que saudade! Das cores.Dos ensaios.Dos cantos. Da alegria. Da cultura popular tomando conta dos espaços. Saudade dos sambas e das toadas de Chico da Silva e de tantos outros artistas que cantaram a Amazônia.
Nossas músicas não eram apenas músicas. Elas contavam quem nós éramos. Falavam da nossa terra, dos nossos rios, da nossa gente, das nossas festas e dos nossos sentimentos. E havia também os escritores, poetas e artistas que ajudaram a transformar a Amazônia em palavras, versos, histórias e canções.
Saudade do Vivaldão
E quem viveu o Vivaldão sabe do que estou falando. Aquele estádio era mais do que um lugar para assistir futebol. Era encontro. Era torcida. Era paixão. Era discussão antes, durante e depois do jogo.
Era gente chegando, gente saindo e gente contando vantagem sobre o próprio time. O tempo passou. O estádio mudou. O futebol mudou. A cidade mudou. Mas a lembrança ficou.
Saudade das conversas
Talvez uma das maiores saudades seja justamente das conversas. Do bate-papo sem hora para terminar. Das rodas de amigos.Das calçadas. Do vizinho que chegava. Da pessoa que puxava uma cadeira.
Do café. Da conversa que começava falando de futebol e terminava falando de política, família, trabalho, música e da vida dos outros.
E tinha o velho “disse me disse”. Às vezes não servia para absolutamente nada. Mas fazia parte da vida. As pessoas conversavam. Riam. Discordavam. Contavam histórias. E estavam juntas.
Hoje temos redes sociais. Temos milhares de contatos. Temos mensagens instantâneas. Mas, às vezes, tenho a impressão de que estamos cada vez mais conectados e cada vez mais distantes.
Saudade dos personagens de uma época
Também sinto saudade de pessoas que marcaram a memória do Amazonas. Lembro de Jefferson Péres, de Gilberto Mestrinho,Amazonino Mendes e do senador Evandro Carreira e de tantos outros personagens que fizeram parte de diferentes momentos da nossa história política. Não estou dizendo que aquele tempo era perfeito. Não era.
Havia divergências, disputas e problemas, como existem em qualquer época. Mas eram personagens que tinham presença na vida pública. Tinham voz.Tinham história. Tinham seus admiradores e seus críticos.
E a população acompanhava os debates. A política fazia parte das conversas nas ruas, nas casas, nos bares e nas rodas de amigos. Hoje a velocidade é outra. Tudo acontece em segundos.
Uma notícia aparece e desaparece. Uma opinião nasce e logo é substituída por outra. Talvez tenhamos perdido um pouco daquele tempo de conversar e pensar.
Tudo mudou
E foi então que me lembrei de uma música do meu compadre Chico da Silva: “Mudou”. A canção fala justamente dessa transformação que alcança a música, a tecnologia, a linguagem, os costumes e a maneira como nos relacionamos com o mundo. E talvez seja por isso que ela me toca tanto.
Porque a palavra é simples: Mudou. Mudou a música. Mudaram os instrumentos. Mudou a comunicação. Mudou a maneira de falar. Mudou a cidade. Mudaram os costumes. Mudaram as relações. Mudou o mundo.
A ciência avançou. A tecnologia avançou. A comunicação ficou instantânea. O mundo ficou menor. E não podemos negar que muita coisa melhorou.
Mas existe uma pergunta que fica: O que ganhamos e o que perdemos?
Ganhamos velocidade. Mas será que perdemos tempo para conversar? Ganhamos comunicação instantânea. Mas será que perdemos o prazer de olhar nos olhos? Ganhamos tecnologia.
Mas será que deixamos algumas tradições pelo caminho?
Ganhamos uma cidade maior. Mas será que continuamos conhecendo nossos vizinhos?
Não quero voltar ao passado
É preciso deixar uma coisa clara. Eu não quero voltar ao passado. Não quero uma Manaus parada no tempo. Quero o progresso. Quero tecnologia. Quero uma cidade moderna. Quero hospitais melhores. Quero escolas melhores. Quero transporte público eficiente.
Quero segurança. Quero desenvolvimento. Quero oportunidades para nossos jovens. Quero tudo aquilo que uma grande cidade precisa oferecer. Mas também quero que Manaus não perca a sua alma.
Quero os rios. Quero os igarapés. Quero as árvores. Quero as praças. Quero nossa música. Quero nossa culinária. Quero nossas tradições. Quero que nossos jovens conheçam as histórias daqueles que vieram antes.
Porque uma cidade não é feita apenas de prédios, avenidas e concreto. Uma cidade também é feita de memória.
Talvez seja isso que nos faça tanta falta
Quando sinto saudade do peixe frito, talvez eu esteja sentindo saudade de quem estava sentado comigo. Quando lembro da tapioca, talvez esteja lembrando de uma manhã. Quando lembro do igarapé, talvez esteja lembrando dos amigos. Quando lembro da canoa, lembro de quem remava comigo.
Quando lembro do Vivaldão, lembro das pessoas que estavam na arquibancada. Quando lembro das músicas, lembro de quem cantava. Quando lembro das escolas, lembro dos colegas, dos pipoqueiros e das merendeiras. Quando lembro de Dona Siloca, lembro de uma época inteira.
Talvez a saudade não seja das coisas. Talvez seja das pessoas que davam sentido às coisas.
A Manaus que continua dentro de nós
Talvez aquela Manaus não tenha desaparecido completamente. Talvez ela esteja escondida dentro de cada pessoa que viveu aqueles anos. Está no cheiro do peixe frito. No gosto do tucumã. Na tapioca quente.
Na farinha. No cupuaçu. No taperebá. Na pimenta. No pé de moleque. Na manisoba. No mungunzá.Na pamonha. Está no som de uma toada. Num samba antigo.No boi-bumbá. Na lembrança do Vivaldão.
Na sombra de um benjaminzeiro. No barulho da água batendo na canoa. No Mercadão. No porto. No bate-papo. No “disse me disse”. Está nas pessoas que já partiram. E nas histórias que ainda contamos.
O futuro vai chegar
Manaus continuará mudando. Novos prédios vão surgir. Novas avenidas serão construídas. Novas tecnologias chegarão. Novas gerações vão nascer. Novas músicas serão cantadas. Novos artistas aparecerão.
Novas histórias serão escritas. O tempo não vai parar. E talvez nem deva. Mas podemos escolher aquilo que merece continuar. Podemos levar para o futuro aquilo que havia de melhor naquele passado.
A cultura. A música. A comida. A natureza. A convivência. A simplicidade. A memória. A identidade. Porque modernizar uma cidade não deveria significar apagar sua história. Quanto mais uma cidade cresce, mais importante se torna lembrar de onde ela veio.
E eu continuo lembrando… Lembro dos rios.Dos igarapés. Das canoas. Dos banhos.Dos benjaminzeiros.Das castanheiras.Do Jambeiro. Do Mercadão. Do porto. Do peixe frito. Do caldo de peixe. Da farinha. Do tucumã. Da tapioca. Do cupuaçu. Do taperebá.
Das pimentas. Do pé de moleque. Da manisoba. Do mungunzá. Da pamonha. Dos pipoqueiros. Das merendeiras. De Dona Siloca. Das pastoras do boi-bumbá. Dos sambas. Das toadas.
De Chico da Silva. Dos artistas. Dos escritores. Do Vivaldão. Das conversas. Do “disse me disse”. De Jefferson Péres. De Gilberto Mestrinho. De Evandro Carreira. E, principalmente, lembro das pessoas.
Daquelas que fizeram a Manaus que conheci ser o que foi. Tudo mudou. E como mudou. Talvez seja impossível impedir o tempo. Ele passa. Leva coisas. Traz outras. Transforma cidades. Transforma pessoas.
Transforma costumes. Mas existe uma coisa que o tempo não consegue apagar completamente: a memória de quem viveu. Eu não quero a Manaus de volta. Quero que a Manaus que está por vir seja ainda melhor.
Mas gostaria que ela carregasse consigo um pouco daquela cidade que conhecemos. Que os nossos filhos e netos possam conhecer nossas comidas, nossas músicas, nossas histórias, nossos rios, nossos artistas e nossas tradições.
Que saibam que antes dos grandes prédios havia árvores. Antes dos celulares havia conversas. Antes das mensagens instantâneas havia cartas e encontros. Antes das redes sociais havia vizinhos. Antes dos grandes centros comerciais havia mercados e feiras.
E antes de tudo isso havia uma cidade vivendo no ritmo dos seus rios. Talvez seja essa a maior lição da saudade: não precisamos voltar no tempo para preservar aquilo que amamos. Podemos levar a memória conosco.
Podemos ensinar. Podemos contar. Podemos cantar. Podemos preservar. Porque uma cidade pode mudar suas ruas. Pode mudar seus prédios. Pode mudar seus costumes. Pode mudar sua maneira de viver.
Mas aquilo que ela colocou dentro do coração de quem a viveu nunca deveria desaparecer. E quando tudo parece tão diferente, quando olho para trás e vejo quantas coisas ficaram pelo caminho, só consigo pensar naquelas duas palavras que Chico da Silva transformou em música:
Tudo mudou. E como mudou. Mas algumas saudades… essas continuam exatamente no mesmo lugar.
Almir Souza
Redator • Escritor • Pesquisador • Compositor
Olhar do Norte Brasil
