SAMUEL BENCHIMOL..O homem por trás do nome que atravessou gerações. Ainda menino, Samuel Benchimol conheceu uma Amazônia muito diferente daquela que conhecemos hoje. Conheceu a Amazônia dos rios como caminhos, dos seringais, das dificuldades, das famílias que dependiam da floresta e de uma economia que podia transformar sonhos em riqueza — mas também destruir esperanças.
Foi nesse ambiente que começou a se formar um homem que, décadas mais tarde, seria reconhecido como economista, professor, jurista, escritor, pesquisador, empresário e um dos grandes estudiosos da Amazônia.Samuel Isaac Benchimol nasceu em Manaus, em 13 de julho de 1923. Era filho de Isaac Israel Benchimol e Nina Siqueira Benchimol e fazia parte de uma família de oito irmãos.
A história familiar carregava uma forte presença amazônica: seu pai nasceu em Aveiros, no Pará, trabalhou como seringueiro, piloto de batelão, regatão, contador, juiz de paz e comerciante; sua mãe nasceu em Tefé, no Amazonas.
Mas antes de existir o professor, o escritor ou o empresário, existiu o menino que precisou aprender cedo sobre dificuldades, trabalho e educação.
A infância entre o seringal e a busca pelo conhecimento
Em 1926, a família deixou Manaus e seguiu para a região do rio Abunã, onde Isaac Israel trabalharia em seringais. Samuel ainda era criança. A experiência durou alguns anos e marcou profundamente sua trajetória. A família viveu as dificuldades de uma Amazônia distante dos grandes centros, enquanto a crise do ciclo da borracha reduzia as oportunidades e tornava a sobrevivência cada vez mais difícil.
Foi nesse período que apareceu uma personagem fundamental na formação de Samuel: sua mãe, Nina. Preocupada com o futuro dos filhos, ela não aceitava que a dificuldade econômica determinasse o destino da família. Em um episódio registrado na memória familiar, Nina reuniu borracha no seringal e negociou sua passagem para Belém, buscando proporcionar aos filhos acesso à educação.
A história da família, portanto, não começa com uma empresa. Começa com uma mulher acreditando que o conhecimento poderia mudar o destino dos filhos. E talvez essa seja uma das primeiras chaves para compreender Samuel Benchimol.
O retorno a Manaus
Entre 1929 e 1932, Samuel e os irmãos estiveram em Belém para receber educação básica. Ele estudou no Colégio Progresso Paraense.Em 1933, a família retornou definitivamente a Manaus.
O jovem Samuel ingressou no Ginásio Amazonense Pedro II, atual Colégio Estadual do Amazonas, onde estudou entre 1933 e 1938. Depois passou pelo Colégio Dom Bosco e pela Escola Técnica de Comércio Sólon de Lucena, onde se formou contador.
Era uma formação que já revelava algo incomum. Samuel não escolheu um único caminho. Ele acumulava conhecimentos.Contabilidade.Direito.História.Geografia.Economia.Sociologia. E, mais tarde, aprofundaria tudo isso na universidade.
Estudar, trabalhar e construir o próprio caminho
A juventude de Samuel foi marcada por uma combinação que o acompanharia durante toda a vida: trabalho e estudo. Em 1940, trabalhou como despachante de bagagens e passageiros da Panair do Brasil. Em 1941, aos 18 anos, começou também sua trajetória no magistério, ensinando Geografia e História na Escola Primária Professor Vicente Blanco.
Em 1941, iniciou o curso de Direito na Faculdade de Direito do Amazonas. Enquanto estudava, continuava trabalhando. A carreira acadêmica começou praticamente junto com a formação universitária.
E havia ainda outra faceta que poderia passar despercebida diante de sua futura produção científica: Samuel escrevia poesia. Entre 1942 e 1945, produziu Versos dos Verdes Anos, conjunto de poemas e haikais que revela um lado literário do jovem estudante. Também escreveu um relato de viagem pelo rio Solimões até Iquitos, realizado em 1942 com um grupo de estudantes. O texto permaneceu inédito.
O futuro grande estudioso da Amazônia já começava, portanto, a observar a região não apenas como território, mas como experiência humana.
O professor nasceu antes do grande intelectual
Samuel formou-se em Direito em 1945. Mas o professor já existia havia anos. Lecionou Economia e História do Brasil na Escola Técnica de Comércio Sólon de Lucena, foi professor substituto de Introdução à Ciência do Direito e ensinou Sociologia na Escola de Enfermagem do Amazonas. Em 1946, partiu para os Estados Unidos.
Na Miami University, em Oxford, Ohio, aprofundou seus estudos e concluiu mestrado em Sociologia e Economia em 1947. Depois retornou ao Amazonas e prosseguiu sua formação, chegando ao doutorado em Direito pela Faculdade de Direito do Amazonas em 1954.
Esse período ajudou a construir a combinação que se tornaria uma de suas características mais marcantes:o olhar jurídico, econômico e social sobre a Amazônia. Ele não queria apenas saber quanto a região produzia.
Queria entender como as pessoas viviam, como a economia funcionava, como a sociedade se organizava e quais caminhos poderiam levar a Amazônia ao desenvolvimento. A Amazônia deixou de ser apenas território
A partir dos anos 1950 e 1960, o pensamento de Samuel foi ganhando uma dimensão cada vez maior. Sua visão sobre a Amazônia não ficou limitada à economia. A região passou a ser observada também por seus aspectos humanos, culturais, geográficos, biológicos, políticos, antropológicos e sociais.
Essa amplitude talvez seja uma das razões pelas quais seu nome atravessou gerações. Samuel não estudava apenas uma Amazônia econômica. Estudava uma Amazônia inteira.
Em 1954, tornou-se doutor em Direito. Na vida pública e empresarial, ocupou funções como vice-presidente do Banco do Estado do Amazonas, entre 1957 e 1962, e diretor da Companhia de Petróleo da Amazônia, a Copam, entre 1962 e 1968. Também teve longa atuação na Associação Comercial do Amazonas.
Mas havia uma diferença fundamental. Para Samuel, experiência prática e conhecimento intelectual não precisavam caminhar separados. Um alimentava o outro.
O empresário que continuou sendo professor
A história empresarial da família Benchimol será tema da segunda reportagem desta série. Mas é impossível contar Samuel sem mencionar que, em 1942, ele e o irmão Israel criaram a Benchimol & Irmão, empresa que daria origem à Bemol. Em 1956, Samuel, Israel e Saul fundaram a Fogás. O empresário, porém, nunca abandonou o professor.
Essa talvez seja uma das características mais interessantes de sua personalidade. Ele transitava entre negócios, universidade, pesquisa, livros e instituições. Participou de debates sobre a economia regional e também da estruturação da Zona Franca de Manaus, especialmente como intelectual interessado nos caminhos econômicos da região.
Era um homem que parecia compreender que construir uma empresa e pensar uma região eram tarefas diferentes, mas não necessariamente incompatíveis.
O escritor que transformou pesquisa em memória
Samuel Benchimol produziu uma obra extensa. Entre seus trabalhos estão Estrutura Geo-social e Econômica da Amazônia, de 1966; Amazônia um Pouco-Antes e Além-Depois, de 1977; Amazônia: a Guerra na Floresta, de 1992; Eretz Amazônia: os Judeus na Amazônia, de 1998; Amazônia: Formação Social e Cultural, de 1999; e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia: Cenários, Perspectivas e Indicadores, publicado em 2002.
Mas talvez mais importante que a quantidade de livros seja a pergunta que atravessa sua obra: Como desenvolver a Amazônia sem destruir aquilo que faz dela uma região única?
Décadas antes de sustentabilidade se transformar em uma das grandes palavras do debate internacional, Samuel já trabalhava com questões relacionadas ao equilíbrio entre economia, sociedade e natureza.
Seu pensamento pode ser resumido em quatro princípios que aparecem em seu legado: economicamente viável, ecologicamente adequado; politicamente equilibrado, socialmente justo. Não era apenas uma frase bonita. Era uma maneira de pensar a região.
O homem de fé, família e universidade
Existe ainda um Samuel que os números, os cargos e os livros não conseguem explicar completamente. O homem de família. O homem de fé.O cidadão. Em seu discurso de despedida, saudade e exortação, em janeiro de 2000, Samuel deixou uma frase que hoje parece quase uma espécie de testamento intelectual:
“Espero que os livros que escrevi para revelar, descobrir e pesquisar a Amazônia sirvam para manter a minha passagem por este mundo…” Ele sabia que o tempo passa. Sabia que as pessoas partem.
Mas acreditava que o conhecimento poderia permanecer. E talvez por isso tenha trabalhado tanto para ensinar.
O professor que queria formar pessoas
Samuel criou até uma maneira particular de estimular seus alunos. A Ordem do Mérito dos Cobras e Buiuçus era concedida aos estudantes considerados mais inteligentes e dedicados. A iniciativa transformava o reconhecimento acadêmico em incentivo para que os jovens começassem sua caminhada profissional com confiança. A ideia revela um aspecto importante de sua personalidade.
Samuel não queria apenas transmitir conteúdo. Queria estimular pessoas. Queria que seus alunos saíssem da universidade preparados para caminhar com as próprias pernas e cabeças.
Em 1998, recebeu o título de Professor Emérito da Universidade Federal do Amazonas. Em 2000, recebeu a Medalha de Honra ao Mérito da Academia Amazonense de Letras. Em 2002, foi diplomado membro titular da Academia Amazonense de Letras, ocupando a Cadeira nº 11.
Um homem que pertenceu a muitos mundos
Talvez seja difícil definir Samuel Benchimol em uma única profissão. Ele foi advogado.Economista.Sociólogo.Professor.Escritor.Pesquisador.Empresário.Homem de fé. Mas talvez nenhuma dessas palavras, isoladamente, seja suficiente.
Porque o que parece unir todas elas é uma preocupação maior: compreender a Amazônia. Compreender para explicar. Explicar para ensinar. Ensinar para transformar. E transformar sem destruir.
É nesse ponto que sua trajetória pessoal começa a se confundir com a própria história da região.
Quando o homem se transforma em memória
Samuel recebeu o título de Professor Emérito, publicou novas obras e continuou produzindo até os últimos anos de vida. Em 2002, publicou Desenvolvimento Sustentável da Amazônia: Cenários, Perspectivas e Indicadores. Em 11 de abril daquele ano, foi diplomado membro titular da Academia Amazonense de Letras.
Poucos meses depois, em 5 de julho de 2002, morreu em Manaus, vítima de câncer no pulmão. Tinha 78 anos. Mas sua história não terminou naquele dia. A passagem que não terminou
Existe uma frase de Samuel que talvez explique melhor do que qualquer biografia aquilo que ele desejava deixar: “…proporcionem a minha permanência através da memória, da ciência e do meu canto.”
Mais de duas décadas depois de sua morte, seu nome continua associado a bibliotecas, memoriais, instituições de ensino, pesquisas, homenagens e ao estudo da Amazônia. Sua produção continua sendo consultada.
Suas ideias continuam sendo discutidas. E sua família continua presente na economia regional. Mas isso será assunto para as próximas partes desta história.
Porque ainda precisamos conhecer a família que caminhou ao seu lado, os irmãos que participaram da construção empresarial e as gerações que deram continuidade ao trabalho iniciado décadas atrás.
E precisamos, sobretudo, voltar às ideias. À Amazônia que Samuel tentou compreender. À Amazônia que ele queria economicamente viável, ecologicamente adequada, politicamente equilibrada e socialmente justa. Talvez seja justamente aí que esteja a grandeza desse homem.
Samuel Benchimol não passou pela Amazônia apenas como alguém que nasceu, trabalhou e morreu aqui. Ele passou décadas tentando entender o que a Amazônia era — e, principalmente, o que ela poderia vir a ser. E essa pergunta continua aberta.
MATÉRIA 1 — O HOMEM: Samuel chega à nossa história.
MATÉRIA 2 — A FAMÍLIA E O IMPÉRIO: descobrimos o que foi construído.
MATÉRIA 3 — O LEGADO E O PENSAMENTO: descobrimos para onde suas ideias continuam navegando.
Almir Souza
Redator • Escritor • Pesquisador • Compositor
Olhar do Norte Brasil
