MANAUS – A violência contra mulheres nas instituições públicas de ensino superior do Amazonas não é um fenômeno isolado. Pesquisas, denúncias e processos disciplinares revelam um problema estrutural marcado por relações hierárquicas, desigualdades de gênero e dificuldades enfrentadas pelas vítimas para denunciar agressores.
Estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), identificou que a sala de aula é apontada como um dos ambientes mais vulneráveis à ocorrência de abusos, especialmente devido às relações de poder existentes entre professores e estudantes.
A pesquisa, intitulada “Violência contra as mulheres na universidade: uma análise nas instituições de ensino superior no Amazonas”, ouviu 1.166 pessoas da Ufam, UEA e Instituto Federal do Amazonas (Ifam). Dos participantes que relataram ter sofrido algum tipo de violência, 73% eram mulheres.
Os dados revelam uma realidade preocupante. Entre as mulheres entrevistadas, 24,39% relataram assédio, inclusive em ambientes virtuais; 16,11% sofreram humilhações; 11,96% foram vítimas de assédio sexual, estupro ou importunação sexual; além de registros de ameaças, discriminação social, racismo e violência motivada por orientação sexual ou identidade de gênero.
Para especialistas envolvidas no estudo, o problema reflete uma estrutura social mais ampla. A professora Iranildes Caldas, da Ufam, afirma que o machismo e o patriarcado presentes na sociedade brasileira também se reproduzem dentro das universidades.
“A universidade não é uma ilha isolada da sociedade. As desigualdades de gênero, raça e classe existentes fora dos muros acadêmicos também estão presentes em seu interior”, observa a professora Milena Fernandes Barroso, organizadora da pesquisa.
MEDO DE DENUNCIAR
Um dos aspectos mais preocupantes identificados pelo estudo é o baixo número de denúncias formais. Entre os principais motivos estão o medo de represálias, a vergonha, o desconhecimento dos canais institucionais e a falta de confiança nas medidas adotadas pelas instituições.
Segundo os pesquisadores, estudantes em início de trajetória acadêmica estão entre os mais vulneráveis. O receio de perder bolsas de pesquisa, oportunidades acadêmicas ou sofrer reprovação contribui para o silêncio de muitas vítimas.
Além do impacto emocional e psicológico, especialistas alertam que a violência pode levar ao abandono dos cursos e à evasão universitária.
PROTESTOS E DENÚNCIAS RECENTES
Em maio de 2026, estudantes da Ufam realizaram manifestações no campus de Manaus cobrando providências diante de denúncias de assédio envolvendo professores. Cartazes com frases como “Assédio é crime” e “Silêncio protege o agressor, não a vítima” marcaram os protestos.
Os manifestantes relataram episódios de comportamentos inadequados durante atividades acadêmicas e práticas esportivas. Parte das denúncias foi encaminhada às autoridades policiais.
Outro caso que mobilizou a comunidade universitária envolveu a denúncia de estupro apresentada por uma estudante após uma festa universitária. Embora o episódio tenha ocorrido fora das dependências da instituição, ele ampliou o debate sobre segurança e proteção das mulheres no ambiente acadêmico.
MEDIDAS INSTITUCIONAIS
A Ufam informou que adota medidas cautelares imediatas quando recebe denúncias, incluindo acolhimento às vítimas e afastamento temporário dos investigados durante a apuração dos fatos.
No Ifam, denúncias envolvendo assédio sexual levaram à instauração de diversos processos administrativos disciplinares. Entre 2020 e 2026, a instituição registrou 22 procedimentos relacionados a assédio moral e sexual, resultando em afastamentos cautelares e demissões de servidores.
Já a UEA informou ter recebido 21 denúncias entre 2023 e maio de 2026, sendo 15 por assédio moral e seis por assédio sexual. A universidade afirma estar estruturando políticas permanentes de prevenção e enfrentamento à violência.
MUDANÇA ESTRUTURAL
Para as pesquisadoras ouvidas, a punição de casos individuais é necessária, mas insuficiente. Elas defendem a implementação de políticas permanentes de prevenção, acolhimento e proteção às vítimas, além de ações educativas voltadas para toda a comunidade acadêmica.
A avaliação é que o enfrentamento da violência exige mudanças estruturais capazes de combater práticas patriarcais, discriminatórias e autoritárias historicamente presentes nos ambientes universitários.
Enquanto novas denúncias continuam surgindo, estudantes, professoras e movimentos sociais seguem pressionando por universidades mais seguras, inclusivas e comprometidas com a proteção dos direitos das mulheres.
Por Almir Souza
Redação Olhar do Norte Brasil
Foto: AAS
