Banco da Amazônia: chegou a hora de liderar um pacto pela equidade das oportunidades na Amazônia..Mais do que financiar projetos, o BASA nasceu para promover desenvolvimento regional. O desafio agora é ampliar o acesso ao crédito e reduzir as desigualdades que ainda marcam a maior floresta tropical do planeta.
MANAUS (AM) – Existem instituições financeiras que administram recursos. Outras administram uma missão histórica. O Banco da Amazônia (BASA) pertence a esse segundo grupo.
Sua origem está profundamente ligada ao desenvolvimento da Amazônia e à construção de uma política de Estado voltada para uma região estratégica para o Brasil e para o mundo. Muito antes de se tornar um banco de fomento, a instituição nasceu como Banco de Crédito da Borracha, criado durante a Segunda Guerra Mundial para apoiar a economia da floresta e dar suporte aos chamados Soldados da Borracha, milhares de brasileiros que enfrentaram condições extremas para garantir o abastecimento de látex aos países aliados.
Desde então, sua missão ultrapassa a simples concessão de financiamentos. O compromisso do BASA sempre foi reduzir desigualdades históricas e impulsionar o crescimento sustentável da Amazônia.
Uma riqueza imensa cercada por enormes desafios
Passadas mais de oito décadas, a missão permanece atual. A Amazônia Legal reúne uma das maiores reservas de biodiversidade do planeta, riquezas minerais, potencial energético, recursos hídricos e uma economia que desperta interesse internacional. No entanto, convive com profundas desigualdades sociais e econômicas.
O Amazonas representa esse contraste de maneira emblemática. Maior estado brasileiro em extensão territorial, guardião de grande parte da floresta amazônica e responsável por importantes serviços ambientais para o equilíbrio climático global, o estado ainda enfrenta dificuldades históricas relacionadas ao acesso ao crédito, infraestrutura, logística, assistência técnica e presença do poder público em centenas de comunidades do interior.
Empreender na Amazônia significa superar desafios que vão muito além das questões financeiras.
São horas — e muitas vezes dias — de deslocamento pelos rios, custos elevados de transporte, dificuldades de comunicação, assistência técnica limitada e uma logística que encarece qualquer atividade econômica.
Nesse cenário, o crédito deixa de representar apenas um financiamento. Ele passa a significar oportunidade, inclusão produtiva e cidadania.
Os números mostram um desafio
Dados recentes do Fundo Constitucional de Financiamento do Norte (FNO) mostram que, entre janeiro e agosto de 2025, o Pará contratou cerca de R$ 4,1 bilhões em operações.
O Tocantins alcançou aproximadamente R$ 2,5 bilhões. Roraima registrou cerca de R$ 2,4 bilhões. O Amazonas recebeu aproximadamente R$ 1,4 bilhão. Os números, por si só, não autorizam conclusões definitivas. A distribuição dos recursos obedece critérios técnicos, qualidade dos projetos apresentados e normas operacionais.
Mas eles levantam uma reflexão importante. Será que um estado que enfrenta algumas das maiores barreiras logísticas do país pode depender exclusivamente da capacidade espontânea de apresentar projetos para acessar linhas de financiamento?
Igualdade não significa justiça
Desenvolvimento regional exige compreender que igualdade formal nem sempre produz justiça social. Quem enfrenta obstáculos maiores normalmente precisa de instrumentos mais eficientes para alcançar as mesmas oportunidades.
Esse princípio orienta políticas públicas em diversas partes do mundo e deveria continuar inspirando a atuação dos bancos públicos de desenvolvimento. Nesse contexto, o Banco da Amazônia possui legitimidade histórica para liderar uma nova etapa do desenvolvimento regional.
Nenhuma outra instituição conhece tão profundamente os desafios econômicos da Amazônia. Nenhuma acumulou experiência semelhante no financiamento da produção regional.E poucas carregam uma identidade tão ligada ao crescimento sustentável da região.
Uma nova agenda para o desenvolvimento amazônico
Chegou o momento de ampliar essa missão. Uma agenda que fortaleça o relacionamento do banco com pequenos produtores, agricultores familiares, cooperativas, comunidades ribeirinhas, empreendedores urbanos, setor industrial, comércio, bioeconomia, turismo, pesca e inovação.
Essa estratégia pode incluir um plano específico para o Amazonas, integrando crédito, assistência técnica, capacitação, tecnologia, interiorização do atendimento e fortalecimento das estruturas locais.
Equipes itinerantes, parcerias com universidades, Sebrae, federações empresariais, associações comerciais e prefeituras podem aproximar o banco dos empreendedores que mais necessitam de apoio.
Também seria importante ampliar mecanismos de transparência, permitindo que a sociedade acompanhe não apenas os valores financiados, mas o impacto real desses investimentos na redução das desigualdades e na geração de oportunidades.
Um compromisso histórico com a Amazônia
A Associação Comercial do Amazonas (ACA) chega aos seus 155 anos como uma das instituições mais tradicionais do estado, acompanhando praticamente toda a evolução econômica da região.
Ao longo de sua trajetória, participou de importantes momentos da história amazonense, incluindo a consolidação da Zona Franca de Manaus, e continua representando milhares de empresários comprometidos com o desenvolvimento sustentável.
Assim como a ACA, o Banco da Amazônia construiu um patrimônio que vai além dos números.
Construiu credibilidade. Construiu confiança. Construiu compromisso público.
Por isso, o fortalecimento do diálogo entre o BASA, a Associação Comercial do Amazonas e a sociedade organizada pode representar um novo capítulo para o desenvolvimento regional.
Não apenas para ampliar operações de crédito. Mas para construir um verdadeiro pacto pela equidade das oportunidades na Amazônia.
O futuro da Amazônia depende das pessoas
A Amazônia oferece ao mundo biodiversidade, água, conhecimento científico, energia, alimentos, riquezas minerais e um patrimônio ambiental indispensável ao equilíbrio climático do planeta.
Entretanto, nenhuma dessas riquezas será suficiente se milhões de amazônidas continuarem afastados das oportunidades de empreender, inovar, produzir e prosperar. O verdadeiro desenvolvimento regional começa quando o crédito deixa de ser apenas um contrato entre banco e cliente.
Ele passa a representar um compromisso permanente entre o Estado e os cidadãos. Foi essa a razão que deu origem ao Banco da Amazônia. E é essa missão que continua justificando sua existência.
Por Almir Souza
Redação Olhar do Norte Brasil
Imagem: Mauro Queiroz
