DUAS RODAS, UMA NOVA CIDADE.. Manaus fabrica motocicletas e bicicletas em escala industrial, mas ainda precisa preparar suas ruas para proteger quem pedala, pilota e trabalha sobre duas rodas. Manaus está diante de um paradoxo: a cidade que fabrica milhões de veículos de duas rodas ainda precisa avançar na construção de uma mobilidade urbana capaz de receber com segurança quem pedala, pilota e trabalha sobre duas rodas.
No primeiro semestre de 2026, as fabricantes instaladas no Polo Industrial de Manaus produziram 1.063.397 motocicletas, o melhor resultado para os seis primeiros meses do ano desde 2011. O polo também alcançou uma marca histórica: 40 milhões de motocicletas produzidas.Mas esse número conta apenas uma parte da história.
Da fábrica para as ruas
A motocicleta deixou de ser apenas um bem de consumo. Hoje ela é instrumento de trabalho, alternativa de transporte, fonte de renda e peça importante da logística das cidades.
Está na entrega do restaurante, da farmácia e do pequeno comércio. Está no mototáxi, nos serviços técnicos e no deslocamento diário de trabalhadores.
Para muita gente, especialmente nas periferias, a motocicleta representa economia de tempo e dinheiro diante das grandes distâncias e das dificuldades do transporte coletivo.
Quando Manaus bate recordes de produção, portanto, existe algo maior acontecendo. Existe uma sociedade que está encontrando nas duas rodas uma resposta para problemas que as cidades ainda não conseguiram resolver completamente.
E aí surge a pergunta: As cidades estão preparadas para essa transformação?
A bicicleta também mudou de lugar
A bicicleta já não pode ser vista apenas como esporte ou lazer. Para milhares de brasileiros, ela é transporte, trabalho e economia. Manaus também participa dessa transformação. A indústria instalada no Polo Industrial de Manaus projeta produzir 350 mil bicicletas em 2026, crescimento de 4,3% sobre 2025. A bicicleta elétrica aparece entre as tendências do setor.
Motocicleta, bicicleta e bicicleta elétrica fazem parte de uma nova realidade urbana. E não precisamos colocar uma contra a outra. O desafio é criar espaço seguro para todas.
O problema não está nas duas rodas
Durante muito tempo, o planejamento urbano brasileiro foi pensado principalmente a partir do automóvel e do transporte coletivo. Mas as ruas mudaram. Hoje convivem carros, ônibus, motocicletas, bicicletas, bicicletas elétricas e trabalhadores das plataformas digitais.
A mobilidade ficou mais diversificada. O planejamento precisa acompanhar. Isso significa pensar em pavimentação, sinalização, iluminação, fiscalização, ciclovias, ciclofaixas, estacionamentos, corredores e integração entre os diferentes meios de transporte.
Não se trata de tirar o carro da rua. Também não se trata de transformar a motocicleta ou a bicicleta em solução para todos. Trata-se de oferecer escolhas e, principalmente, segurança.
Quem trabalha sobre duas rodas
Existe uma dimensão social que não pode ser esquecida. Entregadores, mototaxistas, técnicos, vendedores e prestadores de serviços passam muitas horas expostos ao trânsito.
Sua segurança depende do veículo, mas também depende da cidade. Em 2025, Manaus registrou 245 mortes no trânsito, uma redução de 20,71% em relação a 2024. Entre motociclistas, os óbitos caíram de 158 para 116. É uma evolução importante.
Mas cada número representa uma pessoa e uma família.
E os dados de 2026 mostram que o desafio continua. Entre janeiro e maio, a Prefeitura registrou aumento de 47 para 56 mortes envolvendo motociclistas na comparação com o mesmo período de 2025.
Por isso, a discussão sobre mobilidade precisa colocar a proteção da vida no centro.
Manaus pode transformar indústria em inteligência urbana
Aqui está uma oportunidade que merece ser discutida.
Manaus possui fabricantes, engenheiros, trabalhadores especializados, fornecedores, universidades e institutos de pesquisa.
Por que não transformar a cidade em um grande laboratório de mobilidade sobre duas rodas?
Fabricantes, Suframa, governos, universidades, institutos de tecnologia, trabalhadores, ciclistas e motociclistas poderiam participar de projetos-piloto. Pontos críticos poderiam ser estudados. Tecnologias de segurança poderiam ser testadas.
Sistemas de sinalização poderiam ser aperfeiçoados. Bicicletas elétricas poderiam participar de experiências de mobilidade. A indústria poderia conhecer melhor os problemas encontrados diariamente nas ruas. A cidade conversaria com a fábrica.
E a fábrica poderia ajudar a cidade a encontrar novas soluções.
O futuro também será tecnológico
A transformação não termina na produção. A eletrificação abre novas possibilidades para baterias, motores, eletrônica, sistemas de recarga e reciclagem. Para a Zona Franca de Manaus, isso representa uma oportunidade estratégica.
O futuro da indústria não será medido apenas pela quantidade de veículos produzidos. Também será medido pela capacidade de gerar tecnologia, qualificação, inovação e soluções para a sociedade.
E Manaus já possui uma enorme vantagem: conhecimento acumulado durante décadas na produção de veículos de duas rodas.
A cidade precisa acompanhar a fábrica
O paradoxo está justamente aí. Manaus sabe fabricar o futuro. Agora precisa preparar suas ruas para ele. Não adianta produzir uma motocicleta moderna se o trânsito continua colocando o motociclista em risco.
Não adianta fabricar uma bicicleta elétrica se o ciclista não encontra espaço seguro para pedalar. Não adianta falar em mobilidade sustentável se a vida continua sendo colocada em segundo plano.
A cidade precisa acompanhar a transformação que já acontece dentro das fábricas. E talvez essa seja uma das grandes agendas que Manaus pode oferecer ao Brasil: transformar sua força industrial em inteligência urbana.
A pergunta que fica
O futuro da mobilidade não será construído apenas dentro das fábricas. Será construído também nas ruas. Manaus já demonstrou que consegue produzir motocicletas e bicicletas em grande escala.
Agora precisa demonstrar que consegue organizar uma cidade onde essas pessoas possam circular com segurança. Porque mobilidade não pode ser apenas chegar mais rápido. É chegar vivo.
Como colocar milhões de pessoas sobre duas rodas sem colocar suas vidas em risco?
Essa é uma pergunta para Manaus. E, cada vez mais, para todo o Brasil.
Almir Souza
Redator • Escritor • Pesquisador • Compositor
Olhar do Norte Brasil
