“Zona Franca de Manaus: O Brasil Ainda Desconhece a Amazônia” A Zona Franca de Manaus nunca foi apenas um modelo tributário. Ela nasceu como uma estratégia nacional de soberania, integração territorial e proteção econômica da Amazônia brasileira.
Reduzir sua importância a benefícios fiscais ou atacar sua existência sem compreender sua dimensão histórica revela o quanto parte do país ainda desconhece a realidade amazônica.
Nos últimos dias, a discussão voltou ao centro do debate nacional após a ação judicial movida pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e pela Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica contra dispositivos da regulamentação da Reforma Tributária ligados à preservação das garantias constitucionais da Zona Franca de Manaus.
Ao mesmo tempo, outra polêmica incendiou as redes sociais e gerou indignação em Manaus e em toda a Região Norte. O influenciador digital Gabriel Silva publicou vídeos ofensivos contra o modelo econômico da Zona Franca de Manaus, afirmando que “as fábricas não fabricam nada”, ironizando a estrutura industrial da região e utilizando termos considerados preconceituosos contra a população amazônida.
As declarações provocaram forte reação popular, política e institucional. Parlamentares, representantes do setor produtivo, trabalhadores da indústria e influenciadores amazonenses repudiaram o conteúdo, apontando desconhecimento sobre o funcionamento do Polo Industrial de Manaus e sobre a importância econômica da Zona Franca para o Brasil.
O caso acabou reacendendo um debate muito maior: a dificuldade histórica de parte do país em enxergar a Amazônia além dos estereótipos.
Durante décadas, a região foi tratada apenas como reserva ambiental, fronteira mineral ou problema logístico. Pouco se fala, no entanto, sobre a existência de um dos maiores polos industriais da América Latina instalado em plena floresta amazônica, responsável por movimentar cadeias produtivas nacionais, gerar centenas de milhares de empregos diretos e indiretos e contribuir para manter a floresta em pé através da economia formal.
O SINAEES-AM acompanha o tema com serenidade institucional, mas também com a responsabilidade histórica de representar um setor que ajudou a consolidar Manaus como referência continental em produção eletroeletrônica, inovação industrial e desenvolvimento tecnológico.
Causa estranheza observar que setores tradicionalmente defensores da segurança jurídica e da previsibilidade regulatória questionem justamente um modelo protegido pela Constituição Federal e construído dentro das regras democráticas brasileiras.
A regulamentação aprovada pelo Congresso Nacional não criou privilégios inéditos para a Amazônia. Apenas preservou condições mínimas para a continuidade de um sistema produtivo que sustenta empregos, arrecadação tributária, desenvolvimento regional e estabilidade socioambiental numa das áreas mais estratégicas do planeta.
Não houve improviso. Não houve ruptura institucional. Houve debate público, audiências, participação técnica e decisão soberana do Congresso Nacional.
Fragilizar a Zona Franca de Manaus não significa fortalecer automaticamente outros polos industriais brasileiros. O risco real pode ser exatamente o contrário: ampliar desigualdades regionais, enfraquecer a economia formal amazônica e aumentar vulnerabilidades sociais numa região historicamente sensível.
O Polo Industrial de Manaus tornou-se símbolo de resistência econômica da Amazônia brasileira. Em vez de ser tratado com preconceito ou superficialidade, deveria ser compreendido como peça central de qualquer projeto sério de soberania nacional, integração territorial e desenvolvimento sustentável.
Como advertia Rui Barbosa: “fora da lei não há salvação”. E foi exatamente dentro da Constituição e do pacto federativo que as garantias históricas da Zona Franca de Manaus foram preservadas.
O debate sobre a Amazônia precisa amadurecer. Porque defender a Zona Franca de Manaus não é defender privilégios.
É defender empregos, indústria nacional, estabilidade social e a permanência de uma economia legal no coração da maior floresta tropical do planeta.
Por Almir Souza
Redação Olhar do Norte Brasil
Foto: AAS
