Quem vai transformar a riqueza da Amazônia em riqueza para os amazônidas?.. A Pan-Amazônia começa a discutir uma nova economia baseada na floresta, no conhecimento e na capacidade de gerar valor dentro da própria regiãoA pergunta parece simples, mas talvez seja uma das mais importantes para o futuro da Amazônia: quem vai transformar a riqueza da Amazônia em riqueza para os amazônidas?
Durante séculos, a região foi observada principalmente como território de recursos naturais. Madeira, minérios, petróleo, pescado, produtos da floresta e outras riquezas atravessaram seus rios e fronteiras, muitas vezes deixando pouco valor agregado nos territórios onde foram produzidos.
Agora, uma nova discussão começa a ganhar força em toda a Pan-Amazônia: é possível manter a floresta em pé e, ao mesmo tempo, construir uma economia capaz de gerar emprego, renda, tecnologia e oportunidades para quem vive na região?
O debate deixou de ser apenas uma questão ambiental. Está se transformando em uma questão econômica, social e estratégica.
Iquitos coloca a bioeconomia no centro do debate
Entre 25 e 27 de agosto, representantes de diferentes países e setores da Pan-Amazônia participaram, em Iquitos, no Peru, do II Fórum de Ação pela Bioeconomia Pan-Amazônica, encontro da Rede Pan-Amazônica pela Bioeconomia. A agenda discutiu financiamento, mercados, conhecimento, políticas públicas e fortalecimento das capacidades locais.
O encontro revela uma mudança importante de perspectiva. A discussão já não é somente sobre como preservar a floresta. É também sobre como criar uma economia capaz de valorizar aquilo que a floresta oferece sem destruí-la.
Isso significa pesquisar, desenvolver produtos, melhorar cadeias produtivas, criar tecnologia, industrializar, acessar mercados e, principalmente, fazer com que uma parcela maior do valor permaneça nos territórios amazônicos.
A riqueza não pode sair apenas como matéria-prima
Esse talvez seja um dos grandes dilemas históricos da região. A Amazônia possui biodiversidade, água, conhecimento tradicional, produtos florestais, potencial científico e uma população que conhece profundamente seu território. Mas transformar essa riqueza natural em produtos de maior valor exige investimento, infraestrutura, ciência, tecnologia, qualificação profissional e políticas públicas.
É justamente nesse ponto que a bioeconomia ganha importância. Não basta retirar um produto da floresta e vendê-lo. É preciso perguntar quem pesquisa, quem transforma, quem industrializa, quem cria a tecnologia e quem fica com o maior valor da cadeia.
Essa é uma discussão que precisa envolver os países amazônicos.
O Brasil começa a olhar para a bioindustrialização
No Brasil, essa mudança também começa a aparecer em iniciativas concretas. A Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) levou ao Ministério da Fazenda, em agosto, o Plano de Transformação Ecológica da Bioeconomia da Amazônia Ocidental (PTEB). O plano projeta mobilizar até R$ 20 bilhões em investimentos e gerar 50 mil empregos na região Norte.
A proposta inclui estratégias para fortalecer cadeias produtivas amazônicas, ampliar a agregação de valor nos territórios e impulsionar a bioeconomia.
Aqui está uma palavra que merece atenção: agregação de valor. Ela pode representar uma mudança histórica para a Amazônia. Em vez de simplesmente vender o produto primário, a região pode produzir, processar, desenvolver tecnologia, criar marcas e conquistar mercados.
A floresta em pé também pode ser uma economia
Preservação e desenvolvimento não precisam necessariamente estar em lados opostos. A verdadeira questão é qual modelo de desenvolvimento a Amazônia deseja construir.
O Brasil já possui uma experiência industrial importante no Amazonas. E, ao mesmo tempo, existem possibilidades de ampliar cadeias relacionadas à biodiversidade, à ciência, à tecnologia e à produção sustentável.
O desafio é conectar essas capacidades. Uma castanha pode sair da comunidade como produto primário. Mas também pode participar de uma cadeia de alimentos, cosméticos, ingredientes funcionais ou outros produtos de maior valor.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado ao açaí, cupuaçu, óleos vegetais, fibras, frutos, plantas e tantos outros recursos. A diferença está no conhecimento e na tecnologia colocados entre a floresta e o mercado.
O mundo quer a Amazônia. Mas e os amazônidas?
Existe uma questão que não pode ser esquecida. O interesse internacional pela Amazônia é enorme. A floresta é fundamental para o equilíbrio climático, possui uma biodiversidade extraordinária e desperta interesse científico e econômico.
Mas a Amazônia não pode ser vista apenas como um patrimônio ambiental do mundo. Ela também é território de milhões de pessoas. São comunidades, produtores, empreendedores, pesquisadores, trabalhadores, povos tradicionais, indígenas, empresas e jovens que precisam participar dos benefícios de uma nova economia amazônica.
A conservação precisa caminhar junto com oportunidades. Porque uma floresta protegida, mas cercada de pobreza e falta de oportunidades, continuará enfrentando enormes desafios.
O verdadeiro desafio é criar valor dentro da Amazônia
Os dados mais recentes do monitoramento ambiental mostram que existem avanços importantes no combate ao desmatamento. O INPE estimou para 2025 uma área de 5.796 km² de desmatamento na Amazônia Legal, abaixo dos 6.518 km² registrados em 2024.
Mas reduzir o desmatamento é apenas parte da equação. Precisamos construir uma alternativa econômica. E essa alternativa não pode ser simplesmente substituir a floresta por outra atividade predatória.
O caminho pode estar justamente em transformar a biodiversidade em conhecimento, o conhecimento em tecnologia e a tecnologia em produtos e negócios.
Uma nova pergunta para a Amazônia
Durante muito tempo, perguntamos: Como salvar a Amazônia?
Talvez seja hora de acrescentar outra pergunta: Como fazer a Amazônia prosperar mantendo a floresta em pé? Essa é uma discussão que ultrapassa as fronteiras brasileiras.
Brasil, Peru, Colômbia, Bolívia, Equador, Venezuela, Guiana e Suriname compartilham diferentes partes de uma mesma grande região amazônica. Cada país possui seus próprios desafios, políticas e experiências, mas todos enfrentam uma questão comum: como transformar patrimônio natural em desenvolvimento para suas próprias populações?
O II Fórum de Ação pela Bioeconomia Pan-Amazônica mostra que essa discussão já está acontecendo. E o Brasil também começa a apresentar propostas de transformação econômica baseadas na bioeconomia e na agregação de valor.
O futuro não pode ser apenas preservar. É preciso prosperar. A Amazônia não precisa escolher entre floresta e desenvolvimento. Pode escolher floresta, conhecimento, ciência, tecnologia, indústria, empreendedorismo e desenvolvimento.
Mas existe uma condição: os amazônidas precisam deixar de ser apenas fornecedores de riquezas e passar a ocupar o centro das cadeias que transformam essas riquezas em valor.
Essa talvez seja a grande oportunidade histórica da região. O mundo já descobriu que a Amazônia tem valor. Agora é hora de os amazônidas transformarem esse valor em futuro.
Quem vai transformar a riqueza da Amazônia em riqueza para os amazônidas?
Talvez a resposta esteja justamente na capacidade da própria Amazônia de assumir o protagonismo sobre seu futuro.
Almir Souza
Redator • Escritor • Pesquisador • Compositor
Olhar do Norte Brasil
