OS “SALVADORES DA PÁTRIA” ESTÃO DE VOLTA.. Velhas promessas, novos discursos e os mesmos problemas. Em cada eleição, o Amazonas volta a ouvir as soluções de sempre — enquanto eleitores e políticos parecem presos a um ciclo que se repete há décadas. Há momentos em que a política brasileira parece repetir capítulos de uma novela que já assistimos.
E, neste período eleitoral, uma lembrança me veio à cabeça: “O Salvador da Pátria”, novela exibida pela TV Globo em 1989, escrita por Lauro César Muniz, que contava a história de Sassá Mutema, personagem interpretado por Lima Duarte, um homem simples que acaba sendo colocado no centro de uma disputa política.
Mais de três décadas depois, a expressão “salvador da pátria” continua muito atual. Basta começar uma eleição para eles aparecerem. São os homens e mulheres que chegam prometendo resolver tudo. Vão acabar com os problemas da saúde, melhorar a educação, construir moradias, resolver o trânsito, fazer o metrô, recuperar os igarapés, melhorar o saneamento, pavimentar as ruas, gerar empregos, combater a violência, defender a Zona Franca e, claro, finalmente resolver a BR-319. Tudo parece possível.
E, muitas vezes, tudo parece urgente. O problema é que algumas dessas promessas nós já ouvimos inúmeras vezes.
Trinta anos ouvindo as mesmas promessas
Tenho cerca de trinta anos acompanhando o Amazonas e, sinceramente, muitas vezes tenho a sensação de estar ouvindo o mesmo discurso.
A BR-319 volta. A defesa da Zona Franca volta. O metrô de superfície volta. O saneamento volta. O asfalto volta. A habitação volta. A saúde volta. A educação volta. A segurança volta. O emprego volta.
Mudam os candidatos, mudam os slogans, mudam as músicas e mudam as estratégias de campanha.
Mas muitos problemas continuam esperando uma solução. E é justamente aí que precisamos parar para pensar. Se determinadas soluções são apresentadas há tantos anos como prioridades, por que algumas continuam apenas como promessa eleitoral?
O problema também está na repetição
Existe uma repetição dos políticos. Mas existe também uma repetição dos eleitores. Essa talvez seja a parte mais difícil de admitir. A cada eleição, muitas pessoas voltam a acreditar nas mesmas figuras, nos mesmos grupos e, algumas vezes, nas mesmas promessas. Esperam que, desta vez, tudo será diferente.
Mas como esperar resultados diferentes quando continuamos escolhendo da mesma maneira?
Não se trata de dizer que o eleitor não pode mudar de opinião. Democracia significa justamente liberdade para escolher.
Mas liberdade de escolha também deveria vir acompanhada de memória. Precisamos lembrar o que foi prometido. Precisamos observar o que foi realizado. Precisamos comparar discursos com resultados.
Precisamos perguntar quanto tempo determinada pessoa teve para colocar suas ideias em prática e por que aquilo que prometeu não aconteceu.
A promessa não pode substituir o projeto
Governar uma cidade ou um Estado não é simplesmente anunciar uma obra. Uma grande obra precisa de projeto, orçamento, licenciamento, planejamento, execução, fiscalização e continuidade.
Resolver o trânsito de Manaus não depende apenas de prometer transporte moderno. Melhorar a saúde não acontece apenas com discursos. Resolver o saneamento exige planejamento.
Construir habitação exige infraestrutura. Melhorar a educação exige investimento permanente. E a segurança pública não se resolve apenas com frases de efeito. São problemas complexos que precisam de políticas públicas permanentes.
Talvez esteja na hora de perguntar menos “quem vai salvar o Amazonas?” e mais: “Qual é o projeto? Quanto custa? Quem vai executar? Em quanto tempo? E como poderemos cobrar?”
E o eleitor?
Também precisamos olhar para nós mesmos. Não adianta reclamar da política durante quatro anos e deixar para pesquisar os candidatos apenas na semana da eleição. Não adianta acreditar em um vídeo de poucos segundos sem verificar a informação.
Não adianta escolher apenas pela simpatia, pelo discurso mais bonito ou pela promessa mais grandiosa. E muito menos transformar pequenos benefícios pessoais em critério para decidir o futuro de uma cidade ou de um Estado.
Uma camiseta, um favor, uma vantagem momentânea ou qualquer benefício recebido durante uma campanha pode durar alguns dias. As consequências de uma escolha política podem durar quatro anos ou muito mais.
O voto é muito maior do que aquilo que alguém pode entregar durante uma campanha.
E a nossa juventude?
Existe ainda uma preocupação que não podemos ignorar. Parte da juventude está distante da política. Muitos jovens não acompanham a história dos problemas do Amazonas, não conhecem os debates públicos e acabam recebendo informações principalmente pelas redes sociais.
E hoje existe uma quantidade enorme de informação circulando. Nem tudo é verdade. Nem tudo é mentira. Nem tudo é notícia. Nem tudo é opinião. Nem tudo é proposta. É preciso aprender a distinguir.
Não acredito que devamos simplesmente culpar os jovens. Precisamos perguntar também: o que estamos fazendo para aproximá-los da política?
Família, escola, universidades, imprensa e sociedade têm um papel importante na formação de cidadãos capazes de pesquisar, comparar e questionar. Porque serão esses jovens que, amanhã, estarão escolhendo os governantes.
E se eles herdarem apenas os nossos velhos hábitos eleitorais, poderemos continuar presos ao mesmo ciclo. A esperança é importante, mas a memória também. Não quero que ninguém perca a esperança.
Muito pelo contrário. O Amazonas precisa de esperança. Manaus precisa de esperança. Mas esperança não pode significar acreditar cegamente. Esperança precisa caminhar ao lado da memória, da informação e da cobrança.
Precisamos parar de procurar alguém que venha nos salvar. Nenhum político sozinho vai resolver os problemas do Amazonas. Uma sociedade se transforma com planejamento, instituições funcionando, bons gestores, participação popular e cidadãos cobrando resultados.
O “salvador da pátria” precisa encontrar um eleitor diferente
Talvez o maior desafio desta eleição não seja descobrir quem será o próximo “salvador da pátria”. Talvez seja descobrir se nós, eleitores, estamos dispostos a deixar de procurar salvadores.
Porque já ouvimos muitas promessas. Já vimos muitos discursos. Já tivemos muitas esperanças. E também já tivemos tempo suficiente para aprender.
Antes de acreditar novamente, talvez seja necessário olhar para trás e perguntar: O que foi prometido? O que foi feito? O que ficou pelo caminho? E por que devemos acreditar novamente?
Não precisamos perder a esperança. Precisamos apenas aprender a escolher com mais consciência. Porque o político pode repetir a promessa. Pode mudar o discurso. Pode mudar o slogan.
Pode aparecer com uma nova campanha. Mas a nossa memória não precisa mudar. Até quando? Talvez essa seja a pergunta que deveríamos levar para esta eleição. Até quando vamos continuar ouvindo as mesmas promessas e esperando resultados diferentes?
Até quando vamos aceitar que problemas antigos sejam apresentados como novidades?
Até quando vamos acreditar que uma única pessoa será capaz de resolver tudo?
E até quando nós, eleitores, vamos repetir as mesmas escolhas esperando que alguma coisa finalmente mude?
O Amazonas não precisa de um salvador da pátria. Precisa de planejamento. Precisa de trabalho. Precisa de competência. Precisa de projetos que saiam do papel. Precisa de gestores que apresentem resultados.
E precisa, acima de tudo, de cidadãos que não tenham medo de perguntar e cobrar. Talvez a grande mudança não comece dentro de um palanque. Talvez comece dentro de cada eleitor.
Porque o futuro do Amazonas não pode depender apenas de quem promete salvá-lo. Depende também de quem terá a responsabilidade de escolher.
E fica a pergunta: Estamos escolhendo um novo futuro ou apenas repetindo o passado?
Almir Souza
Redator • Escritor • Pesquisador • Compositor
Olhar do Norte Brasil
