O assunto é mulher. O assunto é vida. Há momentos em que um país precisa olhar para si mesmo sem subterfúgios. O Brasil encerrou 2025 com 1.568 feminicídios registrados. São quatro mulheres assassinadas por dia. Cada número dessa estatística tem nome, tem história, tem família. E deixa uma pergunta que insiste em permanecer sem resposta: por que continuamos falhando em proteger nossas mulheres?
Essa tragédia não começa no momento do crime. Ela nasce antes. No território silencioso das violências invisíveis. No controle financeiro que aprisiona. No isolamento que sufoca. Na humilhação cotidiana que desacredita. Na cultura que relativiza o medo feminino.
Quando o feminicídio acontece, ele já percorreu um longo caminho — feito de permissões sociais e falhas institucionais.
O Brasil possui uma das legislações mais avançadas do mundo. A Lei Maria da Penha representou um marco civilizatório. A tipificação do feminicídio trouxe reconhecimento jurídico à violência de gênero.
Mas os números continuam crescendo.
E isso revela uma verdade incômoda: a existência da lei não garante a presença do Estado. Metade dos feminicídios ocorre em municípios com menos de 100 mil habitantes.
Em muitos deles, faltam delegacias especializadas. Faltam casas de acolhimento. Falta estrutura mínima de proteção. Denunciar, nesses lugares, não é simples. É percorrer longas distâncias. É enfrentar o medo sozinha. É voltar para casa sabendo que o agressor continua livre.
Quando o Estado não chega a tempo, a violência chega primeiro.
Outro dado exige reflexão urgente.
Dos mais de 83 mil casos de violência sexual registrados no país, a maioria das vítimas são crianças e adolescentes com menos de 14 anos. Em dois terços dos casos, o crime acontece dentro da própria casa.
Isso não é apenas um problema de segurança pública. É uma crise estrutural. De educação, de cultura, de proteção social e de responsabilidade institucional.
Nesse cenário, o combate à violência contra a mulher precisa deixar de ser discurso e se tornar prioridade real. Não basta anunciar programas. É preciso garantir execução.
Os recursos estão chegando aos municípios? As estruturas existem? Funcionam? Estão acessíveis?
O controle público precisa agir.
Tribunais de Contas. Ministérios Públicos. Órgãos de fiscalização.
O enfrentamento à violência de gênero precisa estar no centro da agenda institucional — com acompanhamento permanente, rigor técnico e cobrança de resultados.
A proteção das mulheres não pode ser promessa. Precisa ser estrutura, orçamento, presença e ação. O pacto nacional de enfrentamento ao feminicídio é um passo importante.
Mas pactos não salvam vidas sozinhos. Resultados salvam. Essa é uma responsabilidade compartilhada.
Do Estado — que deve proteger. Da sociedade — que não pode tolerar. E dos homens — que precisam romper, de uma vez por todas, com padrões sustentados pelo machismo.
Não há neutralidade possível.
Quando uma mulher é assassinada por ser mulher, não estamos diante de um caso isolado. Estamos diante de uma falha coletiva. E falhas coletivas exigem respostas coletivas. Sem silêncio. Sem relativização. Sem adiamento.
Posicionamento Editorial — Olhar do Norte Brasil
O Olhar do Norte Brasil reafirma seu compromisso com a defesa da vida, da dignidade humana e da justiça social.
A violência contra a mulher não pode ser tratada como estatística. Ela exige ação, responsabilidade e presença real do Estado.
Seguiremos dando visibilidade a esse tema com firmeza, cobrando políticas públicas eficazes, acompanhando a aplicação de recursos e amplificando vozes que não podem mais ser silenciadas.
Proteger mulheres é proteger o futuro. E essa não é uma pauta secundária — é uma urgência nacional.
Assinatura – Olhar do Norte Brasil — Informação que enfrenta. Consciência que transforma.
Por Almir Souza
Redação Olhar do Norte Brasil
Foto AAS