MANAUS RESPIRA FUMAÇA — E A GESTÃO CONTINUA CHEGANDO DEPOIS.. Crianças, idosos e pessoas com problemas respiratórios ficam expostos enquanto o poder público monitora, alerta e anuncia operações, mas a fumaça continua chegando
Manaus amanheceu nesta quarta-feira, 9 de setembro, novamente coberta por fumaça. Em alguns pontos da capital, a concentração de partículas finas ultrapassou 100 microgramas por metro cúbico, nível classificado como “péssimo” pelo Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental. A Defesa Civil Municipal registrou 87,6 microgramas, considerado nível “muito ruim”.
O cenário já não surpreende ninguém. O céu fica cinzento, o cheiro de queimado entra nas casas, os olhos ardem, a garganta irrita e crianças, idosos e pessoas com problemas respiratórios ficam entre os mais vulneráveis.
Mas existe uma pergunta que precisa ser feita: SE TODOS JÁ SABEM QUE A FUMAÇA VAI CHEGAR, POR QUE A CIDADE CONTINUA SENDO PEGA DE SURPRESA? Segundo a Prefeitura, grande parte da fumaça que atingiu Manaus veio de queimadas no sul do Amazonas, norte de Mato Grosso e Rondônia. A mudança na circulação dos ventos transportou as partículas por centenas de quilômetros.
A meteorologia explica de onde veio a fumaça. Mas não explica por que uma cidade com mais de dois milhões de habitantes continua tão vulnerável.
MONITORAR NÃO É SUFICIENTE
Manaus já possui sensores, satélites, drones e sistemas de monitoramento. A Fiocruz Amazônia também passou a contar com uma estação de referência para medir continuamente o PM2,5.
A tecnologia existe. A informação existe. O que precisamos saber é: essa informação está chegando a tempo de proteger as pessoas?
Quando o sensor informa que o ar está péssimo, o cidadão já está respirando esse ar.É preciso transformar o monitoramento em ação. Escolas precisam ter protocolos. Atividades esportivas ao ar livre precisam ser avaliadas. Crianças e idosos precisam receber orientação antecipada. As unidades de saúde precisam estar preparadas para o aumento da demanda.
Não podemos esperar a fumaça chegar para começar a agir.
A CONTA CHEGA AOS HOSPITAIS
A fumaça das queimadas contém partículas extremamente pequenas, capazes de penetrar profundamente nos pulmões. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias estão entre os grupos mais vulneráveis.
E quando a fumaça aumenta, a consequência aparece também na rede pública de saúde. Mais consultas. Mais crises respiratórias. Mais medicamentos. Mais famílias procurando atendimento.
Ou seja: o problema começa no fogo, passa pelo ar e termina no sistema de saúde.
MANAUS TAMBÉM PRECISA OLHAR PARA DENTRO
Existe ainda outra contradição. Manaus está no coração da maior floresta tropical do planeta, mas possui uma das menores coberturas de arborização urbana entre as grandes cidades brasileiras. Dados do Censo 2022 apontaram que apenas 13,7% dos moradores viviam em ruas com árvores.
Árvore não impede a chegada de uma nuvem de fumaça produzida a centenas de quilômetros. Mas uma cidade mais verde é uma cidade mais preparada para enfrentar calor extremo, baixa umidade e poluição.
CHEGA DE ADMINISTRAR A CONSEQUÊNCIA
O Governo do Amazonas mantém operações de combate às queimadas. A Prefeitura também anuncia ações de fiscalização, monitoramento e orientação.
Tudo isso é necessário. Mas o cidadão amazonense precisa enxergar resultado. Quantos incêndios foram evitados?
Quantos foram combatidos antes de crescer? Quantos responsáveis foram identificados? Quantas áreas foram protegidas? E, principalmente: QUANTO A EXPOSIÇÃO DA POPULAÇÃO À FUMAÇA FOI REDUZIDA?
Essa é a pergunta que precisa estar no centro da discussão. Porque monitorar o ar é importante. Combater o fogo é indispensável. Mas proteger a população precisa acontecer antes que a fumaça chegue.
Manaus não pode continuar respirando fumaça todos os anos enquanto governos explicam a direção dos ventos.
A FLORESTA QUEIMA. A FUMAÇA CHEGA. A POPULAÇÃO RESPIRA. E A GESTÃO CORRE ATRÁS. Até quando?
Olhar do Norte Brasil
Jornalismo que olha para a Amazônia.
Por Almir Souza
