HONESTINO: UMA HISTÓRIA DO PASSADO QUE AINDA TEM ALGO A DIZER AO AMAZONAS.. Do olhar do cineasta amazonense Aurélio Michiles, a história de Honestino volta ao presente para falar de juventude, liberdade, memória e democracia. O lançamento de “Honestino”, dirigido pelo amazonense Aurélio Michiles, recoloca no debate brasileiro uma história que atravessou gerações.
O filme, que chegou aos cinemas em 13 de agosto de 2026, mistura documentário e ficção para reconstruir a trajetória de Honestino Guimarães, líder estudantil da geração de 1968, presidente da UNE e desaparecido em 1973, aos 26 anos. Mas, para o Amazonas, existe uma dimensão especial nessa história. O cineasta que decidiu levar Honestino novamente às telas é amazonense.
E é justamente por isso que o filme nos permite fazer uma pergunta que vai além do cinema: Como devemos olhar para aquele período da história brasileira?
Uma história que ainda provoca interpretações
O período de 1964 a 1985 é oficialmente reconhecido pela historiografia e pelas instituições públicas brasileiras como ditadura militar. A repressão política, a censura, as prisões e os desaparecimentos fazem parte dos registros históricos daquele período.
A trajetória de Honestino está inserida justamente nesse contexto. O filme recupera sua militância estudantil, sua passagem pela Universidade de Brasília e seu desaparecimento.
Mas existe outra dimensão que também merece ser observada. A memória de quem viveu aquele período não é necessariamente igual à narrativa construída décadas depois.
E é aqui que a experiência pessoal pode ajudar a ampliar a conversa.
Uma memória de quem viveu aqueles anos
Almir Souza, natural de São Paulo, viveu parte daquele período ainda criança e adolescente. Sua lembrança pessoal é diferente de algumas narrativas que hoje chegam às novas gerações.
Isso não significa negar os acontecimentos documentados pela história. Significa defender que a história precisa ser conhecida em suas diferentes dimensões.
Um país não amadurece quando transforma seu passado em uma única narrativa. Amadurece quando consegue olhar para os fatos, reconhecer suas contradições e permitir que diferentes gerações façam perguntas.
O Brasil que também estava sendo construído
Enquanto a política brasileira atravessava um dos períodos mais controversos de sua história, o país também passava por profundas transformações econômicas e institucionais.
Em 1964 foi criado o Banco Central do Brasil, pela Lei nº 4.595. A instituição começou a funcionar em 1965 e se tornou uma peça central da estrutura financeira brasileira.
Também em 1964 foi criado o Sistema Financeiro da Habitação e o Banco Nacional da Habitação, dentro de uma política nacional voltada ao financiamento habitacional. O BNH posteriormente foi extinto e suas funções incorporadas à Caixa Econômica Federal.
Em 1966 surgiu o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, o FGTS, criado pela Lei nº 5.107. O mecanismo permanece até hoje como um dos principais instrumentos de proteção e poupança vinculados ao trabalho formal.
Em 1970 vieram o PIS e o Pasep, criados respectivamente pelas Leis Complementares nº 7 e nº 8. São instituições e mecanismos que atravessaram diferentes governos e continuam presentes na vida dos brasileiros.
E o Amazonas?
Aqui a história fica ainda mais interessante. A Zona Franca de Manaus não nasceu durante o regime militar. Ela havia sido criada pela Lei nº 3.173, sancionada em 1957 pelo presidente Juscelino Kubitschek.
Mas foi em 1967, durante o governo Castello Branco, que o Decreto-Lei nº 288 reformulou profundamente o modelo, estabelecendo incentivos fiscais e criando as bases para um centro industrial, comercial e agropecuário na Amazônia. O mesmo processo levou à criação da Suframa.
Essa distinção histórica é importante. A Zona Franca começou antes de 1964, mas sua transformação no modelo que conhecemos hoje ocorreu em 1967. Para Manaus, isso foi decisivo.
O Polo Industrial que surgiria posteriormente mudaria profundamente a economia da cidade e se tornaria uma das principais experiências de desenvolvimento regional do país.
Reconhecer uma realização não apaga uma controvérsia
É justamente aqui que precisamos fugir dos extremos. Reconhecer que determinadas instituições e projetos foram criados ou estruturados naquele período não significa afirmar que todo o período foi positivo.
Da mesma maneira, reconhecer a repressão política e os desaparecimentos não significa que todas as transformações econômicas daquele período devam ser apagadas da história.
Uma coisa não anula automaticamente a outra. História não é torcida de futebol. Não precisamos escolher uma única cor para contar tudo o que aconteceu.
O que Honestino pode dizer ao jovem de hoje?
Essa talvez seja a pergunta mais importante provocada pelo filme. Um jovem de Manaus, nascido décadas depois daqueles acontecimentos, pode perguntar: “O que essa história tem a ver comigo?” Tem a ver com liberdade.
Tem a ver com o direito de discordar. Tem a ver com instituições. Tem a ver com responsabilidade política. Tem a ver com desenvolvimento econômico. E, principalmente, tem a ver com a necessidade de conhecer o passado antes de construir o futuro.
O Brasil de hoje também precisa olhar para trás
O Brasil atual vive novamente um ambiente de forte polarização política, disputas institucionais e profundas divergências sobre os caminhos que o país deve seguir. É tentador comparar diretamente o presente com os anos 1960 e 1970.
Mas uma comparação simples pode esconder mais do que revelar. O Brasil de hoje é outro. A Constituição é outra. As instituições são outras. A sociedade também mudou. A pergunta mais produtiva talvez não seja se precisamos repetir soluções do passado.
A pergunta é: Como construir autoridade sem destruir a liberdade? Como ter um Estado capaz de decidir sem enfraquecer as instituições? Como combater a desordem sem transformar o adversário político em inimigo? Como produzir desenvolvimento sem abandonar direitos?
Essas são questões que continuam atuais.
A Amazônia também precisa contar sua versão da história
É aqui que “Honestino” ganha um significado especial para o Olhar do Norte Brasil. A Amazônia não pode aparecer apenas como cenário das grandes histórias nacionais. A Amazônia também produz quem conta essas histórias. Aurélio Michiles é um exemplo.
Um amazonense que saiu de Manaus, viveu uma experiência marcante na juventude e décadas depois transformou aquela memória em cinema. Seu filme não precisa ser a última palavra sobre Honestino.
Pode ser justamente o contrário: o começo de uma conversa. Uma conversa entre gerações. Entre quem viveu e quem nasceu depois. Entre memória e documento. Entre diferentes interpretações.
Não deixar a história desaparecer
Talvez esteja aí a maior força de “Honestino”. Independentemente da posição política de cada leitor, existe algo que deveria ser consensual: um país não pode esquecer sua própria história. Mas lembrar não significa repetir uma narrativa pronta.
Lembrar também significa perguntar, comparar documentos, ouvir quem viveu, conhecer os fatos e reconhecer que períodos históricos podem produzir acontecimentos contraditórios.
A Zona Franca de Manaus é um exemplo dessa complexidade.
Criada em 1957 e profundamente reformulada em 1967, tornou-se uma das maiores experiências de desenvolvimento econômico da Amazônia. O FGTS, o Banco Central, o sistema habitacional, PIS e Pasep são outros exemplos de estruturas criadas ou organizadas naquele período e que continuam fazendo parte do Brasil. Ao mesmo tempo, a história de Honestino lembra que o desenvolvimento de um país não pode ser analisado separado de suas instituições, de suas liberdades e da forma como o Estado trata seus cidadãos.
É justamente essa complexidade que merece ser apresentada às novas gerações.
O passado não precisa governar o futuro
“Honestino” chega ao Brasil em um momento em que a memória política voltou a ocupar espaço no debate público. O filme não é apenas uma obra sobre alguém que desapareceu décadas atrás. É também uma oportunidade para perguntar o que aprendemos e o que ainda precisamos aprender. Para nós, no Amazonas, existe ainda outro significado.
Um cineasta amazonense decidiu contar uma história que nasceu longe da floresta, mas que fez parte de sua própria juventude.
E agora essa história volta ao presente. Não para obrigar ninguém a pensar igual. Mas para lembrar que a liberdade de pensar, questionar e discordar também faz parte da história brasileira.
Talvez essa seja a maior contribuição que podemos tirar de “Honestino”: Conhecer a história não significa concordar com tudo o que aconteceu. Significa ter conhecimento suficiente para não permitir que o passado seja contado apenas por uma única voz.
E talvez seja por isso que a história de Honestino ainda tenha algo a dizer ao Amazonas. O passado passou. Mas a responsabilidade de compreender o que ele deixou para o Brasil continua sendo nossa.
Almir Souza
Redator — Olhar do Norte Brasil
