Amazônia e a Nova Geografia do Comércio Mundial: Assistiremos ou Participaremos?.. Quando o mundo compra corredores logísticos, está comprando o futuro. Enquanto parte do Brasil ainda debate se infraestrutura deve ser vista como gasto ou investimento, as grandes potências econômicas já tomaram sua decisão há muito tempo.
Na última semana, a AD Ports Group, gigante da logística controlada pelo fundo soberano de Abu Dhabi, anunciou a aquisição da Corredor Logística e Infraestrutura (CLI), operadora de importantes terminais portuários em Santos (SP) e Itaqui (MA). O negócio, avaliado em US$ 835 milhões, tornou-se a maior aquisição internacional da história da empresa árabe.
O valor impressiona, mas o significado estratégico impressiona ainda mais. Os Emirados Árabes Unidos não compraram apenas terminais, armazéns ou equipamentos portuários. Compraram acesso a rotas comerciais. Compraram corredores logísticos. Compraram influência sobre os fluxos globais de mercadorias que movimentam a economia mundial.
Essa movimentação revela uma transformação silenciosa que vem ocorrendo nas últimas décadas. A infraestrutura deixou de ser apenas suporte para o desenvolvimento econômico e passou a ser instrumento de poder geopolítico.
Portos, ferrovias, hidrovias, aeroportos, cabos submarinos de comunicação e corredores multimodais tornaram-se ativos tão estratégicos quanto petróleo, gás, minerais ou terras agricultáveis.
É nesse ponto que a discussão deixa de ser sobre Santos ou Itaqui e passa a ser sobre a Amazônia.
Onde está a Amazônia nesse novo mapa mundial?
A pergunta é simples, mas a resposta ainda preocupa.
Mesmo ocupando uma das posições geográficas mais privilegiadas do planeta, conectando a América do Sul ao Atlântico Norte, ao Caribe e aos grandes corredores oceânicos internacionais, a Amazônia continua praticamente ausente dos principais projetos globais de integração logística.
Os grandes fundos observam corredores. As multinacionais observam corredores. Os investidores observam corredores.
E nós ainda discutimos obras fundamentais para integrar a própria região amazônica.
Enquanto portos do Sul e Sudeste enfrentam limitações de expansão devido ao crescimento da demanda, diversos portos amazônicos seguem aguardando investimentos compatíveis com seu enorme potencial.
Muito além da floresta
A Amazônia é frequentemente apresentada ao mundo apenas sob duas perspectivas: a ambiental e a fundiária. Ambas são importantes. Mas nenhuma delas, isoladamente, é capaz de traduzir toda a dimensão estratégica da região.
A Amazônia também é economia. A Amazônia também é logística. A Amazônia também é inovação.
Seus rios formam a maior rede hidroviária natural do planeta. Manaus abriga um dos mais importantes polos industriais do Brasil. A região concentra biodiversidade única, recursos minerais estratégicos, potencial científico extraordinário e uma posição geográfica privilegiada para conectar mercados internacionais.
Apesar disso, raramente aparece como protagonista nos grandes planos globais de integração econômica.
Talvez porque o próprio Brasil ainda não tenha construído uma visão clara da Amazônia como plataforma internacional de comércio, tecnologia, bioeconomia e desenvolvimento sustentável.
Pensar em redes, pensar em futuro
Ao justificar a compra da CLI, a AD Ports declarou que pretende utilizar o Brasil como parte de um corredor comercial ligando América do Sul, Oriente Médio, Índia, África Oriental e Sudeste Asiático.
Essa não é uma visão para o próximo ano. É uma visão para as próximas décadas. É uma estratégia baseada em redes globais.
É uma estratégia baseada em corredores logísticos. E é exatamente esse tipo de pensamento que a Amazônia precisa incorporar.
A questão não é apenas exportar mais produtos. A questão é ocupar uma posição relevante dentro das cadeias globais que irão organizar os fluxos econômicos do século XXI.
Isso vale para a Zona Franca de Manaus. Vale para a bioeconomia. Vale para a mineração sustentável. Vale para os serviços ambientais. Vale para a pesquisa científica. Vale para a inovação tecnológica.
O futuro está sendo desenhado agora
As grandes transformações econômicas raramente chegam anunciadas. Muitas vezes aparecem disfarçadas de notícias aparentemente distantes. Uma aquisição portuária realizada por um fundo soberano do Oriente Médio pode parecer um evento sem relação direta com a Amazônia. Mas não é.
Quando grandes investidores começam a adquirir corredores logísticos ao redor do mundo, estão sinalizando onde enxergam oportunidades para as próximas décadas.
Estão comprando o futuro. E a Amazônia precisa decidir se pretende participar dessa construção ou apenas observar, da margem dos seus rios, o futuro passar.
Por Almir Souza
Redação Olhar do Norte Brasil
Foto AAS
