ABRACICLO e o Setor de Duas Rodas: entre a retomada e a transformação – Almir Souza.. Redator, pesquisador, compositor, escritor — e apaixonado por mobilidade sobre duas rodas. Fundada em 1976, a ABRACICLO reúne atualmente 15 associadas e representa os fabricantes de veículos de duas rodas no Brasil.
Sua atuação vai além da representação institucional: a entidade sustenta o desenvolvimento do setor a partir de três pilares estratégicos — Política Industrial, Segurança Viária e Técnico — com forte atuação no Polo Industrial de Manaus.
A relevância desse ecossistema é expressiva. A produção nacional de motocicletas, concentrada quase integralmente em Manaus, posiciona o Brasil entre os seis maiores fabricantes do mundo. No segmento de bicicletas, o país ocupa a quarta posição global, também com base produtiva majoritária no PIM.
Ao todo, o setor de duas rodas gera mais de 21 mil empregos diretos em Manaus e ultrapassa 150 mil em todo o território nacional.
Sinais de retomada em meio à reconfiguração do mercado
Em março, a produção de bicicletas no PIM alcançou 32.107 unidades — o melhor desempenho mensal do ano. O crescimento de 10,2% em relação ao mesmo período do ano anterior e o avanço de 33,1% frente a fevereiro indicam mais do que uma simples recuperação: revelam um movimento de reorganização estrutural do setor.
Ainda pressionada por fatores macroeconômicos e mudanças no comportamento do consumidor, a indústria demonstra capacidade de adaptação. O foco deixa de ser exclusivamente volume e passa a incorporar uma lógica mais estratégica, baseada na diversificação e qualificação do portfólio.
Esse movimento revela uma mudança silenciosa, porém significativa: produzir melhor, e não apenas mais.
O avanço das bicicletas elétricas
Um dos sinais mais claros dessa transformação está no crescimento das bicicletas elétricas. Em março, foram produzidas 5.447 unidades — um salto de 142,3% na comparação anual.
Mais do que uma tendência de mercado, esse avanço representa uma convergência entre mobilidade urbana, transição energética e novas exigências do consumidor. As elétricas deixam de ser nicho e passam a influenciar diretamente o planejamento industrial das fabricantes.
Entre retração e equilíbrio produtivo
Apesar do desempenho positivo no mês, o acumulado do primeiro trimestre ainda registra retração de 9,5% em relação ao mesmo período do ano anterior, totalizando 75.265 unidades.
O dado evidencia um cenário de transição: a recuperação existe, mas não é uniforme. O setor ainda busca equilíbrio após ciclos anteriores de expansão, ajustando estoques, produção e demanda.
Perfil de mercado e distribuição regional
As bicicletas do tipo Mountain Bike (MTB) seguem liderando a produção, com 35,5% do total em março. A permanência dessa liderança ao longo do trimestre demonstra a resiliência de um segmento consolidado, que atende tanto ao lazer quanto ao uso cotidiano.
Na distribuição regional, o Sudeste concentra 44,8% da produção mensal e mais da metade no acumulado do trimestre. O dado reforça a centralidade econômica da região, mas também evidencia onde a demanda por mobilidade alternativa de maior valor agregado se intensifica.
Ainda assim, outras regiões — especialmente a Norte — mantêm papel estratégico, sobretudo onde a bicicleta ultrapassa o lazer e se consolida como meio essencial de transporte.
50 anos de ABRACICLO: mais que um marco institucional
Ao completar cinco décadas, a ABRACICLO não celebra apenas sua trajetória, mas também o amadurecimento de um setor que posicionou o Brasil como o principal polo de produção de veículos de duas rodas fora da Ásia.
Esse resultado não se sustenta apenas em escala industrial, mas em capacidade de adaptação, integração produtiva e evolução tecnológica ao longo dos anos.
As engrenagens do Polo Industrial de Manaus
Dentro desse cenário, destacam-se algumas das principais fabricantes instaladas no PIM: Caloi tradição histórica aliada à gestão internacional do grupo Pon Holdings – Oggi Bikes — forte presença em tecnologia e performance – Sense Electric Bike — foco em inovação e mobilidade elétrica – Audax — competitividade e expansão no mercado nacional
Essas empresas ajudam a sustentar não apenas a produção, mas a evolução do setor dentro da Amazônia.
Conclusão — o novo ciclo das duas rodas
O setor de bicicletas no Polo Industrial de Manaus vive um momento de transição.
Entre a recomposição do volume e a incorporação de novas tecnologias, começa a surgir um novo padrão de crescimento — menos dependente de picos produtivos e mais orientado por inovação, eficiência e inteligência de mercado.
No fundo, o que está em jogo não é apenas a indústria.
É o futuro da mobilidade.
(linha Olhar do Norte Brasil): “Quando a indústria aprende a evoluir, não são apenas máquinas que se movem — é a sociedade que muda de direção.”
Por Almir Souza
Redação Olhar do Norte Brasil
Foto AAS