MANAUS ESTÁ SOBRE DUAS RODAS — E O FUTURO PODE SER ELÉTRICO.. De uma das maiores cadeias industriais de motocicletas do mundo pode nascer uma nova indústria amazônica, com mais tecnologia, empregos qualificados, segurança, inovação e presença internacional.
Durante muito tempo, a motocicleta foi vista no Brasil apenas como uma alternativa mais barata ao automóvel ou como uma solução para escapar do trânsito. Essa visão já não explica a realidade.
Hoje, sobre duas rodas circulam trabalhadores, empreendedores, entregadores, profissionais de serviços, pequenos comerciantes e famílias. Em milhares de municípios brasileiros, a motocicleta representa mobilidade, trabalho e renda.
E a Amazônia conhece essa realidade de perto. Nas grandes distâncias da região, nas periferias de Manaus, nas sedes dos municípios, nos ramais e nas pequenas cidades, a motocicleta muitas vezes ocupa um espaço que o transporte público não consegue preencher.
Mas existe uma segunda história — e ela começa justamente em Manaus.
MANAUS FABRICA A MOBILIDADE DO BRASIL
Em 2025, as indústrias instaladas no Polo Industrial de Manaus produziram 1,98 milhão de motocicletas, o melhor resultado desde 2011 e o terceiro maior da história do setor.
Para 2026, a projeção da Abraciclo chega a 2,07 milhões de unidades. A produção brasileira, concentrada quase totalmente em Manaus, coloca o país entre os seis maiores produtores mundiais.
São 20,6 mil empregos diretos em Manaus e mais de 150 mil postos de trabalho estimados em todo o Brasil relacionados à cadeia. E os números do primeiro semestre de 2026 mostram que o setor continua avançando.
O Polo Industrial de Manaus produziu 1.152.715 motocicletas, motonetas e ciclomotores até junho. O segmento de Duas Rodas respondeu por 19,77% do faturamento industrial do PIM, ficando atrás apenas de Bens de Informática.
Isso significa que aproximadamente um quinto da economia industrial de Manaus está ligado às duas rodas.
NÃO É APENAS UMA LINHA DE MONTAGEM
Ainda existe no país uma visão antiga de que a Zona Franca simplesmente recebe componentes e monta produtos. A realidade industrial é muito mais complexa. Uma motocicleta produzida em Manaus envolve motores, chassis, rodas, sistemas elétricos, peças metálicas e plásticas, pintura, soldagem, usinagem, fundição, testes, controle de qualidade e engenharia de produção.
Por trás de cada motocicleta existe uma cadeia de fornecedores, trabalhadores especializados, tecnologia e conhecimento acumulado. A fábrica está em Manaus. Seus efeitos econômicos percorrem o Brasil.
Fornecedores de diferentes estados participam dessa cadeia, movimentando setores como siderurgia, autopeças, química, borracha, tecnologia, transporte, embalagens, engenharia e serviços.
Depois que a motocicleta deixa Manaus, outra grande cadeia começa: concessionárias, oficinas, transportadoras, comércio de peças, seguradoras, financeiras, empresas de entrega e milhares de profissionais.
É uma indústria que começa na fábrica e chega à rua.
A MOTOCICLETA TAMBÉM REVELA UM PROBLEMA URBANO
Mas há uma questão que não podemos ignorar. O crescimento da frota também revela as dificuldades de mobilidade das cidades brasileiras. As pessoas compram motocicletas porque precisam chegar ao trabalho, prestar serviços, transportar pequenas cargas, estudar e ganhar a vida.
Nas regiões Norte e Nordeste, onde as distâncias são grandes e o transporte coletivo muitas vezes é limitado, essa realidade fica ainda mais evidente. Por isso, produzir mais motocicletas precisa vir acompanhado de políticas públicas melhores.
Pavimentação, sinalização, formação de condutores, fiscalização, atendimento às vítimas e planejamento urbano precisam acompanhar o crescimento da frota. Mais motocicletas nas ruas também significam uma responsabilidade maior com a vida.
O PRÓXIMO SALTO: TECNOLOGIA
É aqui que Manaus pode abrir um novo capítulo. A próxima transformação do setor passa pela eletrificação, eficiência energética, conectividade, novos materiais, segurança, inteligência embarcada, baterias e reciclagem.
E Manaus já possui parte importante da estrutura necessária. O Polo Industrial reúne competências em eletrônica, componentes, energia, plásticos, metalurgia e montagem de precisão.
Isso abre uma oportunidade estratégica: transformar o Polo de Duas Rodas em uma referência brasileira também na produção de veículos elétricos leves e conectados. Mas existe uma condição.
Não basta trazer os componentes mais sofisticados de fora e deixar para Manaus apenas a etapa final. O desafio é aumentar o conteúdo tecnológico produzido na própria região.
MAIS TECNOLOGIA, MAIS EMPREGOS QUALIFICADOS
Motores elétricos, controladores, sensores, softwares, baterias e sistemas de gerenciamento de energia podem criar uma nova geração de empregos.
O trabalhador da indústria do futuro continuará precisando conhecer a produção, mas também poderá atuar com eletrônica, programação, automação, engenharia, dados, química e segurança digital.
Essa talvez seja uma das maiores oportunidades para o Amazonas. Não apenas fabricar mais. Fabricar melhor. Não apenas montar tecnologia. Produzir tecnologia.
MANAUS PODE OLHAR PARA O MUNDO
Existe ainda outro desafio: exportar mais. Em 2025, o Brasil exportou 43.117 motocicletas, apesar de produzir quase dois milhões. Para 2026, a projeção é de aproximadamente 45 mil unidades.
A diferença chama atenção. Se Manaus possui escala industrial mundial, por que não pode ampliar sua presença na América Latina, Caribe, África e outros mercados onde motocicletas compactas, econômicas e resistentes são importantes?
O caminho passa por logística, acordos comerciais, simplificação das exportações e desenvolvimento de modelos adequados às necessidades desses mercados. Produzir mais de dois milhões e exportar pouco mais de 2% mostra que ainda existe muito espaço para crescer.
O AMAZONAS TEM UMA ESCOLHA PELA FRENTE
O Polo de Duas Rodas chegou até aqui porque soube responder às necessidades do consumidor brasileiro. Agora, o desafio é maior. O Amazonas precisa aproveitar a força industrial que já construiu para avançar em tecnologia, inovação, segurança, qualificação profissional, sustentabilidade e exportação.
A discussão não deveria ser apenas sobre quantas motocicletas Manaus vai produzir. A pergunta mais importante é: QUANTO CONHECIMENTO E TECNOLOGIA O AMAZONAS VAI PRODUZIR JUNTO COM ELAS? Essa é a oportunidade.
A indústria brasileira já está sobre duas rodas. A população também. E Manaus pode fazer muito mais do que fabricar motocicletas para o Brasil. Pode ajudar a criar a motocicleta brasileira dos novos tempos: mais segura, eficiente, inteligente, limpa e cada vez mais carregada de tecnologia amazônica.
OLHAR DO NORTE BRASIL
A Amazônia não quer apenas participar do futuro. Quer ajudar a construí-lo.
Por Almir Souza
Redação Olhar do Norte Brasil
Imagem: Mauro Queiroz
