O HOMEM QUE SONHOU A AMAZÔNIA DO FUTURO.. Uma noite, um sonho. E uma pergunta que continua acordada: e se a Amazônia que imaginamos puder realmente existir? Naquela noite, o cansaço não vinha apenas do corpo. Era um cansaço mais profundo. Daqueles que chegam quando a gente olha para a realidade e sente que alguma coisa está errada. Notícias eram quase sempre as mesmas: violência, abandono, desigualdade, destruição, promessas que não saíam do papel.
E, no meio de tudo isso, estava a Amazônia. Gigantesca em território, rica em natureza, culturas e possibilidades — mas, muitas vezes, pequena diante dos próprios problemas. Eu desliguei tudo. Deitei. Não esperava respostas. Na verdade, naquela noite, não esperava nada. Só queria dormir.
O RIO
No começo, veio o silêncio. Mas não era um silêncio vazio. Era um silêncio vivo. Um silêncio que parecia carregar o som da floresta, da água e dos animais. Quando abriu os olhos, ele estava sobre um rio.
Não sabia onde estava. A primeira coisa que percebi foi a água. Era tão limpa que parecia transparente como o ar. Eu conseguia enxergar os peixes, os movimentos sob a superfície, as plantas, as pedras.
Tudo estava ali. Visível. Como se o próprio rio tivesse decidido deixar de esconder seus segredos. Então percebi uma coisa. Não estava sozinho. Ao redor de min, outras pessoas flutuavam dentro de estruturas transparentes, parecidas com grandes bolhas.
Elas se deslocavam suavemente sobre a água. Sem motores. Sem fumaça. Sem barulho. Sem deixar marcas. Ninguém corria. Ninguém gritava. Ninguém parecia ter pressa. Foi quando uma voz surgiu.
Não vinha de fora. Parecia nascer dentro de mim.— Aqui, ninguém vem para explorar. Aqui, todos vêm para compreender. Eu não respondi. Não precisava. Apenas senti.
A FLORESTA
A bolha começou a se mover. Deslizava pelo rio como se fizesse parte dele. Quanto mais avançava, mais a floresta aparecia. Árvores enormes se erguiam dos dois lados. Mas não havia ameaça.
Elas não pareciam dominar a paisagem. Pareciam protegê-la. Os animais também não fugiam. Observavam. Um boto surgiu ao lado da bolha. Nadou lentamente. Parou por alguns segundos e olhou diretamente para mim. Naquele olhar não havia medo. Havia alguma coisa diferente. Consciência.
Como se naquele mundo homem e natureza finalmente tivessem aprendido a se reconhecer.
AS LENDAS
Mais adiante, aconteceu algo que ele jamais conseguiria explicar. As lendas da Amazônia começaram a aparecer. Não como histórias contadas pelos mais velhos. Não como personagens de livros. Elas estavam ali.
Presenças sutis entre as árvores. Sombras que se movimentavam. Formas que apareciam e desapareciam entre a água e a floresta. Eu não sentiu medo. Porque naquele lugar nada parecia estar em guerra com nada.
Tudo coexistia. A floresta. Os rios. Os animais. Os seres humanos. As lendas. A vida.
A CIDADE QUE NÃO FOI CONSTRUÍDA
A viagem continuou. Até que o rio se abriu diante dele como um grande portal natural. Do outro lado apareceu algo que parecia uma cidade. Mas não era uma cidade como as que conhecia.
Não havia concreto dominando a paisagem. Não havia prédios sufocando a floresta. As estruturas pareciam nascer da própria natureza. Eram orgânicas. Integradas. Vivas.
Eu olhei demoradamente. Nada parecia construído. Parecia cultivado. Pessoas caminhavam tranquilamente. Crianças brincavam. Idosos conversavam. Trabalhadores circulavam. Ninguém parecia possuir tudo.
Ninguém parecia não possuir nada. Não havia aquela distância brutal entre quem tinha demais e quem não tinha sequer o necessário. Todos tinham o suficiente. Foi então que ele entendeu. Não precisou perguntar. Não precisou ler.
Não precisei ouvir nenhuma explicação. Eu simplesmente soube. Dentro dele surgiram três palavras: FRATERNIDADE-LIBERDADE- IGUALDADE
Mas, naquele lugar, elas não eram discursos. Eram realidade.
O FIM DO SONHO
Então alguma coisa começou a mudar. A luz diminuiu. O rio ficou distante. A floresta perdeu suas cores. O silêncio começou a desaparecer. Pela primeira vez, eu sentiu medo.
— Não…A palavra saiu quase como um pedido. Eu não queria voltar. Não queria deixar aquele lugar. Não ainda. Mas não havia escolha. A bolha começou a desaparecer. O rio sumiu.
A floresta se dissolveu diante dos seus olhos. A cidade desapareceu. E tudo ficou escuro.
O MUNDO REAL
Quando abri os olhos novamente, o barulho havia voltado. Carros. Vozes. Motores. Cidade. O ventilador girando no teto. Era o mundo real. Eu permaneceu alguns segundos em silêncio.
O coração ainda estava diferente. Como se uma parte dele tivesse permanecido naquele rio.
Então caminhei lentamente até a janela. Lá fora, Manaus seguia seu ritmo. As ruas estavam ali. Os problemas também. A cidade era a mesma. Mas eu não era mais o mesmo. E então veio a pergunta.
A única que realmente importava: Por que aquilo parecia mais real do que isso aqui? Eu não encontrei a resposta naquela manhã. Talvez porque não fosse uma resposta. Talvez fosse um chamado.
Porque agora eu sabia de alguma coisa que antes apenas imaginava: A Amazônia perfeita existe. Eu a vi. Naveguei por seus rios. Caminhei por sua floresta. Encontrou seus animais.
Vi suas lendas. Conheceu sua cidade. Sentiu uma sociedade onde fraternidade, liberdade e igualdade não eram apenas palavras. E talvez aquele lugar não fosse apenas um sonho.
Talvez fosse uma possibilidade. Talvez fosse um caminho. Talvez a Amazônia que ainda não existe esteja esperando apenas que alguém tenha coragem de imaginá-la — e depois começar a construí-la.
Por Almir Souza – Redator – Escritor – Compositor e Pesquisador
Redação Olhar do Norte Brasil
Foto AAS
