AMAZÔNIA: O QUE PODEMOS FAZER POR ELA? Falar da Amazônia é fácil. Difícil é viver nela e perceber, todos os dias, que aquilo que deveria ser cuidado muitas vezes está sendo abandonado. A Amazônia ainda tem uma das maiores riquezas naturais do planeta.
Temos floresta, rios, biodiversidade, cultura e um povo que conhece essa terra como poucos. Mas existe uma pergunta que precisa ser feita, principalmente por quem vive aqui: O que estamos fazendo por ela? Não basta olhar para a floresta distante e dizer que precisamos preservá-la. A Amazônia também está dentro das nossas cidades, nos nossos bairros, nos igarapés, nas praças, nos prédios históricos e nas comunidades do interior.
E é justamente nesses lugares que encontramos sinais de abandono. Quando o abandono vira rotina
Em Manaus, muitas pessoas já se acostumaram a conviver com esgoto a céu aberto, lixo nas ruas, igarapés degradados e espaços públicos que deixam de receber a atenção necessária.
Quando vemos o mesmo problema todos os dias, ele deixa de causar indignação. O errado começa a parecer normal. Mas não deveria ser normal encontrar lixo onde deveria existir cuidado. Não deveria ser normal ver um igarapé se degradando. Não deveria ser normal encontrar praças abandonadas ou patrimônios históricos precisando de atenção.
E existe uma responsabilidade que não pode ser colocada somente sobre o poder público. A sociedade também precisa reagir. É preciso cobrar, participar, denunciar e, principalmente, mudar hábitos.
Não podemos reclamar do lixo se continuamos jogando lixo no chão. Não podemos falar em proteção dos rios enquanto permitimos que nossos igarapés sejam tratados como depósitos.
E o interior do Amazonas?
Existe ainda uma Amazônia que muitas vezes aparece pouco no debate: o interior. São municípios, comunidades rurais e ribeirinhas onde a distância torna tudo mais difícil.
Saúde, educação, transporte, saneamento, cultura, esporte, comunicação e oportunidades ainda são desafios para muitas populações. E justamente onde a floresta está mais presente, muitas vezes faltam oportunidades para quem vive dela.
O interior não pode ser lembrado apenas quando precisamos retirar alguma riqueza. Quem vive no interior também precisa ter o direito de prosperar.Precisamos pensar em produção, beneficiamento, tecnologia, turismo, agricultura, pesca, bioeconomia e outras atividades que permitam transformar a riqueza amazônica em emprego e renda sem destruir a floresta.
A floresta ainda está aqui. E os rios pedem socorro
Talvez uma das maiores riquezas que ainda temos esteja justamente diante dos nossos olhos. A floresta. Os rios. Mas até eles estão dando sinais de que precisam de atenção.
A preservação não pode significar apenas impedir a derrubada de árvores. Precisamos cuidar das águas, combater a poluição, proteger os igarapés, recuperar áreas degradadas e ensinar às novas gerações que natureza não é algo descartável.
Porque não existe Amazônia sem água. Não existe Amazônia sem floresta. E não existe futuro para a Amazônia sem as pessoas que vivem nela. Cadê a nossa indignação?
Talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis. Onde está a sociedade quando um igarapé vai desaparecendo? Onde estão as cobranças quando uma praça é abandonada? Onde está a mobilização quando um patrimônio histórico se deteriora?
Onde está a preocupação quando uma comunidade do interior continua esperando por condições básicas?
Não podemos esperar que alguém de fora venha descobrir nossos problemas para depois começarmos a reclamar.
A Amazônia é nossa responsabilidade. Governos precisam cumprir seu papel. Empresas precisam participar. Organizações precisam atuar. Escolas precisam formar cidadãos. E a população precisa voltar a reivindicar.
A Amazônia não pode ser apenas fonte de riqueza
Durante muito tempo, aprendemos a retirar da Amazônia. Retiramos madeira, minérios, pescado, frutos e tantos outros recursos. Mas precisamos aprender outra palavradevolver. Devolver cuidado.
Devolver respeito. Devolver investimento. Devolver conhecimento. Devolver oportunidades. Devolver futuro. A riqueza da Amazônia precisa permanecer cada vez mais na própria Amazônia, gerando trabalho, renda e qualidade de vida para quem vive aqui.
Essa é uma mudança de pensamento. Floresta em pé também pode significar economia. Rio protegido também pode significar futuro. Interior desenvolvido também pode significar menos desigualdade.
Não podemos nos acostumar
Talvez o primeiro passo seja simples: parar de aceitar o abandono como algo normal.Não podemos nos acostumar com o lixo. Não podemos nos acostumar com o esgoto. Não podemos nos acostumar com os rios pedindo socorro. Não podemos nos acostumar com o abandono das cidades.
Não podemos nos acostumar com um interior esquecido. E não podemos deixar que as novas gerações cresçam acreditando que tudo isso faz parte da vida. A Amazônia precisa voltar a ser motivo de orgulho — não apenas para quem vem de longe, mas principalmente para quem nasceu, trabalha e constrói sua vida aqui.
A pergunta continua
O Dia da Amazônia não deveria ser apenas uma data no calendário. Deveria ser um momento para olhar ao redor e perguntar: O que estamos fazendo pela Amazônia? E a resposta não pode vir somente dos governos.
Ela precisa vir de todos nós. Porque defender a Amazônia também é cuidar da rua onde moramos, do igarapé que passa perto da nossa casa, da praça onde nossas crianças brincam, da cultura que conta nossa história e das comunidades que mantêm viva a identidade deste lugar.
A Amazônia não precisa apenas de discursos.
Precisa de atitude. Precisa de pessoas que cuidem. De governos que façam. De empresas que participem. De escolas que ensinem. De uma sociedade que não permaneça em silêncio.
E talvez seja justamente por isso que a pergunta deste Dia da Amazônia seja tão simples — e tão necessária:AMAZÔNIA: O QUE PODEMOS FAZER POR ELA?
A Amazônia não precisa apenas que falem por ela. Precisa que cuidem dela.
Almir Souza
Redator — Olhar do Norte Brasil
