SONHO POSSÍVEL: POR QUE O INTERIOR DO AMAZONAS NÃO PODE INDUSTRIALIZAR O QUE JÁ PRODUZ?.. Açaí, guaraná, laranja, cupuaçu e leite de búfala mostram que o desenvolvimento pode começar dentro dos próprios municípios. O Amazonas costuma ser apresentado a partir de Manaus, do Polo Industrial e da força econômica da capital. Mas existe outro Amazonas, muito maior e espalhado pelos rios, comunidades, plantações, propriedades rurais e pequenas cidades do interior.
É um Amazonas que produz. Produz açaí, guaraná, laranja, cupuaçu, banana, mandioca, pescado, leite, castanha e tantos outros produtos que fazem parte da economia e da identidade de seus municípios.
A pergunta que o Olhar do Norte Brasil começa a fazer a partir de agora é simples, mas pode abrir uma discussão importante: Por que o interior do Amazonas não pode transformar uma parte maior daquilo que já produz?
Não estamos falando necessariamente da instalação de grandes fábricas em cada município. Estamos falando de agroindústrias, unidades de beneficiamento, cooperativas estruturadas e polos regionais de produção, capazes de transformar matéria-prima em produtos com maior valor agregado. É uma ideia que chamamos de Sonho Possível.
Codajás e o potencial do açaí
Comecemos por Codajás, conhecida como a Terra do Açaí. Os números mostram a força dessa cadeia. Dados da Produção Agrícola Municipal de 2024 apontam Codajás como o maior produtor de açaí do Amazonas, com 31,2 mil toneladas naquele ano.
Mas imaginemos uma possibilidade. E se a produção de açaí de comunidades e municípios próximos pudesse ser transportada para Codajás, onde encontrasse uma estrutura regional de beneficiamento?
O fruto poderia chegar, ser selecionado, processado, embalado e transformado em diferentes produtos.O açaí sairia da região não apenas como matéria-prima, mas como produto industrializado.
Essa lógica poderia fortalecer produtores, gerar empregos e fazer uma parcela maior do dinheiro permanecer na própria região. Codajás já possui uma cadeia econômica consolidada e chegou a movimentar mais de R$ 31 milhões com o açaí em 2021, segundo levantamento citado pelo Sebrae Amazonas.
Então a pergunta não é se existe produção. Existe.A pergunta é: quanto mais valor essa produção poderia gerar dentro do próprio Amazonas?
Maués: o guaraná que já possui uma identidade
Em Maués, o produto que imediatamente vem à memória é o guaraná. O município lidera a produção amazonense da fruta. Dados de 2023 apontaram 200 toneladas de guaraná produzidas em Maués, à frente de Urucará e Presidente Figueiredo.
O guaraná também possui uma característica especial: existe mercado industrial para sua matéria-prima. Isso significa que existe uma cadeia que pode ser fortalecida desde o produtor até o produto final.
O desafio é organizar produção, tecnologia, logística, beneficiamento e mercado.
E aqui surge uma possibilidade para o Sonho Possível: por que Maués não poderia ampliar sua capacidade de transformar o próprio guaraná em produtos de maior valor agregado?
A discussão não é nova. A Embrapa já trabalhou com projetos de expansão da guaranaicultura justamente com objetivos como interiorizar o desenvolvimento, gerar emprego e renda nos municípios e aproximar produtores e compradores.
Rio Preto da Eva: da laranja ao produto
Outro exemplo está próximo de Manaus. Rio Preto da Eva se destaca na produção de laranja. Dados oficiais do IDAM apontam o município como principal produtor de laranja do Amazonas, enquanto dados mais recentes da produção agrícola também mantêm Rio Preto da Eva na liderança estadual.
Aqui, novamente, aparece uma oportunidade. Uma cadeia não precisa terminar na colheita.
Pode seguir para: laranja → seleção → processamento → suco → polpa → derivados → embalagem → comercialização. E isso já começa a acontecer em iniciativas de agroindustrialização na região. Em 2026, por exemplo, foi divulgado um projeto de expansão agroindustrial em Rio Preto da Eva envolvendo a verticalização da produção de guaraná e açaí.
Ou seja, a discussão sobre interiorização da produção industrial não é apenas uma hipótese. Ela já começa a aparecer em iniciativas concretas.
Presidente Figueiredo e o cupuaçu
Presidente Figueiredo é conhecido nacionalmente pelas cachoeiras e pelo turismo, mas também possui atividade agrícola e potencial para o aproveitamento de produtos da agricultura familiar.
O cupuaçu está entre as culturas trabalhadas no município e aparece em estudos da Embrapa sobre a produção familiar no Amazonas.
E aqui está outro ponto importante do nosso projeto: um município não precisa depender de uma única atividade. Turismo, agricultura, agroindústria e bioeconomia podem caminhar juntos.
O cupuaçu pode ser transformado em polpa, doces, geleias, bebidas e outros produtos, desde que existam escala, tecnologia, qualidade, mercado e organização da cadeia.
O produto que hoje sai da propriedade rural pode chegar ao consumidor carregando a marca, a identidade e o valor da região onde nasceu.
Autazes e o leite de búfala
Em Autazes, a discussão pode seguir outro caminho. Ali, a criação de búfalos e a produção de leite e derivados fazem parte da identidade econômica local. O potencial não está apenas na produção do leite.
Está na capacidade de transformá-lo em queijos, iogurtes e outros derivados, criando uma cadeia capaz de agregar valor ao trabalho do produtor. Mais uma vez, o conceito é simples: produzir é importante. Transformar é agregar valor.
Um interior conectado
Talvez o maior erro seja imaginar que cada município precisa construir sozinho toda a sua estrutura industrial. Não necessariamente. Uma comunidade pode produzir. Um município pode concentrar o beneficiamento. Outro pode oferecer logística.
Outro pode participar da comercialização. Assim, podemos pensar em polos regionais, nos quais diferentes municípios se complementam. Imagine o açaí chegando de comunidades próximas a Codajás para ser beneficiado no município.
Imagine produtores de guaraná de diferentes áreas abastecendo uma estrutura de beneficiamento em Maués. Imagine a produção agrícola da região metropolitana encontrando unidades de processamento próximas aos produtores. Isso é interiorização do desenvolvimento.
O Amazonas já tem a matéria-prima
O próprio Governo do Amazonas reconhece diversas cadeias produtivas com potencial regional, entre elas açaí, banana, cacau, citrus e abacaxi. O problema, portanto, não é simplesmente descobrir o que o Amazonas pode produzir. Nós já sabemos.
O desafio é construir as condições para que o produtor tenha acesso a tecnologia, crédito, assistência técnica, energia, transporte, armazenamento, beneficiamento e mercado.
Sem isso, a matéria-prima continuará deixando a região com pouco valor agregado.
O Sonho Possível começa agora
Esta é apenas a primeira matéria de uma discussão que o Olhar do Norte Brasil pretende acompanhar. Escolhemos cinco exemplos: Codajás, Maués, Rio Preto da Eva, Presidente Figueiredo e Autazes. Mas o Amazonas possui 62 municípios.
E cada um deles tem uma história, uma produção, uma vocação e, talvez, uma oportunidade que ainda não foi suficientemente explorada. Nos próximos capítulos, queremos descobrir essas possibilidades. Não queremos prometer fábricas. Queremos pesquisar possibilidades. Não queremos vender ilusões.
Queremos saber o que já existe, o que falta e o que poderia ser construído. Porque talvez o desenvolvimento do interior do Amazonas não precise começar com aquilo que vem de fora.
Talvez ele possa começar com aquilo que já nasce dentro da própria terra.
SONHO POSSÍVEL
O Amazonas já tem a riqueza. Agora precisa transformar riqueza em oportunidade.
Almir Souza
Redação Olhar do Norte Brasil
Imagem Mauro Queiroz
